JUQUINHA — O HOMEM QUE VIROU SERRA

O arquétipo do mineiro entre a terra, a memória e a humildade

Por Ramaya Vallias

Existem homens cuja importância pode ser medida pelos cargos que ocuparam, pelas obras que construíram ou pelas decisões que mudaram seu tempo. E existem aqueles cuja grandeza escapa a qualquer currículo. Não governaram, não acumularam fortuna, não escreveram tratados. Ainda assim, tornaram-se indispensáveis à memória de um povo.

Juquinha da Serra do Cipó pertence a essa segunda categoria.

José Patrício, o Juquinha, era um homem simples. Caminhava pela Serra do Cipó, conhecia seus caminhos e tornou-se conhecido pelo contato espontâneo com os visitantes, pelas flores, pelo chapéu, pelo sorriso e pela cordialidade. Sua história foi incorporada ao imaginário regional a tal ponto que sua figura passou a ser identificada como uma espécie de guardião da Serra. A própria Assembleia Legislativa de Minas Gerais, ao tratar de iniciativa voltada à preservação de sua escultura, descreveu Juquinha como alguém que representava valores da mineiridade.

Mas talvez a pergunta mais interessante não seja quem foi Juquinha.

Talvez seja: por que um homem tão simples permaneceu?

É nesse ponto que sua história deixa de ser apenas biográfica e começa a tocar a psicologia, a filosofia, a arte e a própria construção simbólica do que chamamos de mineiridade.

O arquétipo do mineiro

Falar em um “arquétipo do mineiro” exige cuidado. Minas não cabe em uma personalidade única. Somos muitas Minas. A própria historiografia contemporânea alerta que a mineiridade não deve ser compreendida como uma essência fixa, comum e imutável a todos os mineiros, mas como uma identidade cultural construída ao longo do tempo, atravessada por diferenças, memórias e transformações.

Ainda assim, existem imagens que atravessam gerações.

A prudência. A observação antes da palavra. O vínculo com a família. A hospitalidade. A conversa que começa devagar. A relação profunda com a terra. A religiosidade. O respeito à memória. Uma inteligência que muitas vezes prefere não se anunciar.

E, sobretudo, certa compreensão de que não é necessário fazer barulho para possuir presença.

Talvez esteja aí uma das chaves psicológicas mais interessantes de Minas Gerais.

O arquétipo mineiro não é necessariamente o homem que entra em uma sala exigindo ser percebido. Muitas vezes é aquele que observa primeiro, compreende o ambiente, escuta, mede as palavras e somente depois se manifesta.

Há uma espécie de interioridade em Minas.

Não por acaso, estudos sobre a formação da cultura mineira identificam vínculos históricos com tradições familiares e religiosas, enquanto outras interpretações destacam justamente a multiplicidade das “Minas” e das “Gerais”, nas quais tradição e modernidade convivem.

Somos montanha também nesse sentido.

Existe muito mais por trás da primeira paisagem.

Juquinha e a psicologia da presença

É justamente por isso que Juquinha me interessa artisticamente.

Ele representa uma inversão poderosa dos critérios pelos quais nossa sociedade costuma reconhecer importância.

Juquinha não possuía os símbolos convencionais de poder. Não precisava deles.

Sua força estava na presença.

Do ponto de vista psicológico, há algo extraordinário nisso. O ser humano deseja ser visto. Construímos identidades, posições, discursos e imagens para afirmar nossa existência diante do outro. Grande parte da vida social é organizada em torno dessa necessidade de reconhecimento.

Juquinha percorreu o caminho inverso.

Ele não parece ter construído deliberadamente um personagem para permanecer. Foi a memória coletiva que construiu o personagem a partir do homem.

Essa diferença é fundamental.

Ele não tentou transformar-se em símbolo.

Nós o transformamos.

E talvez os símbolos mais verdadeiros sejam justamente aqueles que não nasceram querendo ser símbolos.

A comunidade reconheceu naquela figura alguma coisa que desejava preservar: simplicidade, pertencimento, acolhimento, liberdade e uma relação quase orgânica com a natureza.

José Patrício deixou, então, de ser apenas José Patrício.

Tornou-se Juquinha.

Juquinha tornou-se memória.

E a memória tornou-se paisagem.

Quando o homem deixa de estar na paisagem

Foi exatamente essa transformação que procurei alcançar em minha obra “Juquinha — O Homem que Virou Serra”.

Ao pintá-lo dentro da minha pesquisa no Realismo Abstrato, percebi que seria insuficiente representar Juquinha com a Serra do Cipó ao fundo.

Isso produziria duas realidades: de um lado, o homem; de outro, a montanha.

Mas minha percepção era outra.

A Serra não está atrás de Juquinha. A Serra está dentro dele.

Essa frase tornou-se uma chave para compreender a pintura.

Por isso, na obra, a matéria do rosto aproxima-se da matéria da pedra. Os cinzas, terras, negros, brancos e tons minerais fazem com que corpo e território pareçam pertencer à mesma origem.

Não procuro desconstruir Juquinha.

Procuro construí-lo além da aparência.

No Realismo Abstrato, a figura é o ponto de partida, mas não necessariamente o destino. O que me interessa é atravessar aquilo que os olhos reconhecem para alcançar aquilo que somente a memória, a emoção e a matéria conseguem revelar.

Em determinado momento da pintura, Juquinha deixa de ser apenas retrato.

Ele começa a adquirir geologia.

É homem e pedra.

É pele e terra.

É indivíduo e memória coletiva.

É Juquinha e é Minas.

Minas talvez seja também uma psicologia da montanha

Há uma dimensão filosófica nessa relação.

A montanha ensina uma temporalidade diferente.

Ela não tem pressa.

Permanece enquanto gerações chegam e desaparecem. Observa cidades nascerem, estradas avançarem, famílias se sucederem. Sua grandeza não precisa ser anunciada diariamente.

Talvez por isso a montanha seja uma metáfora tão poderosa para determinadas características que atribuímos ao imaginário mineiro.

O mineiro muitas vezes carrega uma espécie de geografia interior.

Há curvas antes da chegada.

Há silêncios.

Há coisas que não são reveladas imediatamente.

Há memória acumulada em camadas.

Há uma relação particular com o tempo, com a ancestralidade e com aquilo que permanece.

Mas isso não deve ser confundido com passividade.

As montanhas mineiras também produziram inconformismo, arte, pensamento, política, fé, literatura, liberdade e transformação. A própria ideia histórica de mineiridade foi sendo construída e reconstruída ao longo dos séculos, participando do imaginário social de Minas Gerais.

Por isso, Juquinha pode ser visto como um arquétipo não porque represente todos os mineiros, mas porque concentra simbolicamente algumas características nas quais muitos mineiros conseguem se reconhecer.

A grandeza dos pequenos

Existe, porém, uma dimensão ainda mais profunda nessa história.

A humildade.

Vivemos em uma época fascinada pela visibilidade. Ser percebido tornou-se quase uma forma de existência. Seguidores, títulos, cargos, patrimônio, influência, exposição.

Juquinha nos confronta com uma pergunta desconfortavelmente simples:

quanto disso é realmente necessário para que uma vida seja grande?

Um homem sem poder institucional tornou-se monumento.

Um homem sem fortuna tornou-se patrimônio afetivo.

Um homem simples passou a representar uma das paisagens mais extraordinárias de Minas Gerais.

Há nisso uma inversão que atravessa séculos de pensamento espiritual.

No Evangelho de Mateus, Cristo formula uma das mais poderosas inversões de hierarquia da tradição cristã: “quem a si mesmo se humilhar será exaltado.”

Juquinha não precisa ser transformado artificialmente em personagem religioso para que essa ideia dialogue com sua história.

O que me interessa é o princípio.

A verdadeira grandeza nem sempre coincide com a posição social.

Existem pessoas aparentemente pequenas diante das estruturas do mundo que se tornam gigantes na memória dos homens.

Os humildes serão exaltados.

Não necessariamente porque buscaram a exaltação.

Talvez justamente porque não viveram para ela.

O paradoxo de Juquinha

E aqui encontramos um dos aspectos mais belos de sua história.

Juquinha não teve um grande palácio.

A Serra tornou-se seu palácio.

Não teve um pedestal durante a vida.

A memória colocou-o sobre um.

Não precisou escrever seu nome na história.

Foi o povo que o escreveu.

Não precisou conquistar a Serra.

Ele pertenceu a ela.

Essa é uma diferença filosófica enorme.

Nossa civilização foi construída, em grande medida, sobre a ideia de posse: possuir terras, possuir coisas, possuir posições.

Juquinha nos apresenta outra possibilidade:

pertencer.

Possuir e pertencer são experiências completamente diferentes.

Quem possui afirma: “isto é meu”.

Quem pertence reconhece: “eu sou parte disto”.

Talvez por isso sua figura tenha adquirido tanta força simbólica. Porque sua relação com aquele território parece não ter sido de domínio, mas de integração.

Ele não venceu a montanha.

Ele caminhou com ela.

O homem real torna-se mito

Toda sociedade constrói seus mitos.

Não falo aqui de mito como mentira, mas como uma forma pela qual uma comunidade organiza simbolicamente aquilo que considera importante.

Quando uma personagem real ultrapassa sua existência individual e passa a carregar valores coletivos, ela entra em outra dimensão da memória.

É isso que aconteceu com Juquinha.

Hoje, muitas pessoas que jamais conversaram com José Patrício conhecem Juquinha.

Conhecem sua imagem.

Conhecem sua história.

Param diante de sua escultura.

Fotografam-se ao lado dela.

Contam sua história aos filhos.

E assim acontece algo extraordinário: um homem continua existindo dentro da memória de pessoas que nunca o conheceram.

É nesse instante que a biografia se aproxima do mito.

E o mito, quando permanece vivo, deixa de falar apenas sobre o personagem.

Passa a falar sobre nós.

Pintar Juquinha é pintar Minas

Talvez por isso esta obra tenha, para mim, um significado tão particular.

Sou mineiro.

E pintar Juquinha foi também olhar para a terra à qual pertenço.

Minas Gerais não é apenas um território administrativo delimitado no mapa brasileiro. É uma construção histórica e cultural complexa, plural, feita de muitas regiões, sotaques, memórias e formas de pertencimento. A pesquisa histórica sobre a mineiridade insiste justamente nessa pluralidade e adverte contra a tentativa de reduzir todas essas experiências a um único modelo.

E talvez seja exatamente essa pluralidade que torne Minas tão extraordinária.

Somos o barroco e a roça.

Somos a cidade e o sertão.

Somos universidade e conhecimento transmitido de geração em geração.

Somos pedra, minério, café, cozinha, música, literatura, fé, ciência, indústria, arte e montanha.

Somos muitas Minas.

E Juquinha pertence a uma delas que jamais deveria desaparecer: a Minas que reconhece dignidade no homem simples.

Por isso senti tanta alegria em retratá-lo.

Não como curiosidade folclórica.

Não como personagem pitoresco.

Mas com a dignidade de quem merece ocupar o espaço da arte.

O homem que virou Serra

Minha pintura nasce de uma pergunta recorrente: o que existe para além daquilo que vemos?

É nesse território que construo o Realismo Abstrato.

Parto da realidade reconhecível para procurar aquilo que permanece escondido entre forma, emoção, memória e matéria.

Com Juquinha, talvez a resposta tenha aparecido de maneira particularmente clara.

Por trás do homem havia uma paisagem.

Por trás da simplicidade havia grandeza.

Por trás do personagem havia um arquétipo.

E por trás do retrato havia Minas Gerais.

Quando observo “Juquinha — O Homem que Virou Serra”, não quero encontrar apenas José Patrício.

Quero encontrar alguma coisa de nós mesmos.

A memória dos que vieram antes.

A dignidade do trabalho.

O respeito pela terra.

A hospitalidade.

A fé.

A simplicidade que não significa pequenez.

E aquela sabedoria silenciosa que parece ter aprendido com as montanhas que permanecer é diferente de aparecer.

Juquinha apareceu pouco diante da grande história.

Mas permaneceu.

E talvez essa seja sua maior lição.

Porque, no final, os títulos passam.

Os cargos passam.

O poder passa.

A riqueza muda de mãos.

Mas algumas presenças encontram um lugar tão profundo na memória coletiva que já não podem ser retiradas dela.

José Patrício tornou-se Juquinha.

Juquinha tornou-se memória.

A memória tornou-se símbolo.

E o símbolo encontrou seu lugar definitivo entre as montanhas.

A Serra não está atrás de Juquinha.

Está dentro dele.

E talvez seja por isso que, quando passamos por aquele pedaço de Minas e encontramos sua figura entre as pedras, sentimos que ele ainda está ali.

Não apenas representado.

Presente.

Porque alguns homens passam pela terra.

Outros, de tão profundamente ligados a ela, acabam se tornando parte dela.

Juquinha virou Serra.

E a Serra, como Minas, não esquece.

Ramaya
Artista visual | Realismo Abstrato

Existem homens cuja importância pode ser medida pelos cargos que ocuparam, pelas obras que construíram ou pelas decisões que mudaram seu tempo. E existem aqueles cuja grandeza escapa a qualquer currículo. Não governaram, não acumularam fortuna, não escreveram tratados. Ainda assim, tornaram-se indispensáveis à memória de um povo.

Juquinha da Serra do Cipó pertence a essa segunda categoria.

José Patrício, o Juquinha, era um homem simples. Caminhava pela Serra do Cipó, conhecia seus caminhos e tornou-se conhecido pelo contato espontâneo com os visitantes, pelas flores, pelo chapéu, pelo sorriso e pela cordialidade. Sua história foi incorporada ao imaginário regional a tal ponto que sua figura passou a ser identificada como uma espécie de guardião da Serra. A própria Assembleia Legislativa de Minas Gerais, ao tratar de iniciativa voltada à preservação de sua escultura, descreveu Juquinha como alguém que representava valores da mineiridade.

Mas talvez a pergunta mais interessante não seja quem foi Juquinha.

Talvez seja: por que um homem tão simples permaneceu?

É nesse ponto que sua história deixa de ser apenas biográfica e começa a tocar a psicologia, a filosofia, a arte e a própria construção simbólica do que chamamos de mineiridade.


O arquétipo do mineiro

Falar em um “arquétipo do mineiro” exige cuidado. Minas não cabe em uma personalidade única. Somos muitas Minas. A própria historiografia contemporânea alerta que a mineiridade não deve ser compreendida como uma essência fixa, comum e imutável a todos os mineiros, mas como uma identidade cultural construída ao longo do tempo, atravessada por diferenças, memórias e transformações.

Ainda assim, existem imagens que atravessam gerações.

A prudência. A observação antes da palavra. O vínculo com a família. A hospitalidade. A conversa que começa devagar. A relação profunda com a terra. A religiosidade. O respeito à memória. Uma inteligência que muitas vezes prefere não se anunciar.

E, sobretudo, certa compreensão de que não é necessário fazer barulho para possuir presença.

Talvez esteja aí uma das chaves psicológicas mais interessantes de Minas Gerais.

O arquétipo mineiro não é necessariamente o homem que entra em uma sala exigindo ser percebido. Muitas vezes é aquele que observa primeiro, compreende o ambiente, escuta, mede as palavras e somente depois se manifesta.

Há uma espécie de interioridade em Minas.

Não por acaso, estudos sobre a formação da cultura mineira identificam vínculos históricos com tradições familiares e religiosas, enquanto outras interpretações destacam justamente a multiplicidade das “Minas” e das “Gerais”, nas quais tradição e modernidade convivem.

Somos montanha também nesse sentido.

Existe muito mais por trás da primeira paisagem.


Juquinha e a psicologia da presença

É justamente por isso que Juquinha me interessa artisticamente.

Ele representa uma inversão poderosa dos critérios pelos quais nossa sociedade costuma reconhecer importância.

Juquinha não possuía os símbolos convencionais de poder. Não precisava deles.

Sua força estava na presença.

Do ponto de vista psicológico, há algo extraordinário nisso. O ser humano deseja ser visto. Construímos identidades, posições, discursos e imagens para afirmar nossa existência diante do outro. Grande parte da vida social é organizada em torno dessa necessidade de reconhecimento.

Juquinha percorreu o caminho inverso.

Ele não parece ter construído deliberadamente um personagem para permanecer. Foi a memória coletiva que construiu o personagem a partir do homem.

Essa diferença é fundamental.

Ele não tentou transformar-se em símbolo.

Nós o transformamos.

E talvez os símbolos mais verdadeiros sejam justamente aqueles que não nasceram querendo ser símbolos.

A comunidade reconheceu naquela figura alguma coisa que desejava preservar: simplicidade, pertencimento, acolhimento, liberdade e uma relação quase orgânica com a natureza.

José Patrício deixou, então, de ser apenas José Patrício.

Tornou-se Juquinha.

Juquinha tornou-se memória.

E a memória tornou-se paisagem.


Quando o homem deixa de estar na paisagem

Foi exatamente essa transformação que procurei alcançar em minha obra “Juquinha — O Homem que Virou Serra”.

Ao pintá-lo dentro da minha pesquisa no Realismo Abstrato, percebi que seria insuficiente representar Juquinha com a Serra do Cipó ao fundo.

Isso produziria duas realidades: de um lado, o homem; de outro, a montanha.

Mas minha percepção era outra.

A Serra não está atrás de Juquinha. A Serra está dentro dele.

Essa frase tornou-se uma chave para compreender a pintura.

Por isso, na obra, a matéria do rosto aproxima-se da matéria da pedra. Os cinzas, terras, negros, brancos e tons minerais fazem com que corpo e território pareçam pertencer à mesma origem.

Não procuro desconstruir Juquinha.

Procuro construí-lo além da aparência.

No Realismo Abstrato, a figura é o ponto de partida, mas não necessariamente o destino. O que me interessa é atravessar aquilo que os olhos reconhecem para alcançar aquilo que somente a memória, a emoção e a matéria conseguem revelar.

Em determinado momento da pintura, Juquinha deixa de ser apenas retrato.

Ele começa a adquirir geologia.

É homem e pedra.

É pele e terra.

É indivíduo e memória coletiva.

É Juquinha e é Minas.


Minas talvez seja também uma psicologia da montanha

Há uma dimensão filosófica nessa relação.

A montanha ensina uma temporalidade diferente.

Ela não tem pressa.

Permanece enquanto gerações chegam e desaparecem. Observa cidades nascerem, estradas avançarem, famílias se sucederem. Sua grandeza não precisa ser anunciada diariamente.

Talvez por isso a montanha seja uma metáfora tão poderosa para determinadas características que atribuímos ao imaginário mineiro.

O mineiro muitas vezes carrega uma espécie de geografia interior.

Há curvas antes da chegada.

Há silêncios.

Há coisas que não são reveladas imediatamente.

Há memória acumulada em camadas.

Há uma relação particular com o tempo, com a ancestralidade e com aquilo que permanece.

Mas isso não deve ser confundido com passividade.

As montanhas mineiras também produziram inconformismo, arte, pensamento, política, fé, literatura, liberdade e transformação. A própria ideia histórica de mineiridade foi sendo construída e reconstruída ao longo dos séculos, participando do imaginário social de Minas Gerais.

Por isso, Juquinha pode ser visto como um arquétipo não porque represente todos os mineiros, mas porque concentra simbolicamente algumas características nas quais muitos mineiros conseguem se reconhecer.


A grandeza dos pequenos

Existe, porém, uma dimensão ainda mais profunda nessa história.

A humildade.

Vivemos em uma época fascinada pela visibilidade. Ser percebido tornou-se quase uma forma de existência. Seguidores, títulos, cargos, patrimônio, influência, exposição.

Juquinha nos confronta com uma pergunta desconfortavelmente simples:

quanto disso é realmente necessário para que uma vida seja grande?

Um homem sem poder institucional tornou-se monumento.

Um homem sem fortuna tornou-se patrimônio afetivo.

Um homem simples passou a representar uma das paisagens mais extraordinárias de Minas Gerais.

Há nisso uma inversão que atravessa séculos de pensamento espiritual.

No Evangelho de Mateus, Cristo formula uma das mais poderosas inversões de hierarquia da tradição cristã: “quem a si mesmo se humilhar será exaltado.”

Juquinha não precisa ser transformado artificialmente em personagem religioso para que essa ideia dialogue com sua história.

O que me interessa é o princípio.

A verdadeira grandeza nem sempre coincide com a posição social.

Existem pessoas aparentemente pequenas diante das estruturas do mundo que se tornam gigantes na memória dos homens.

Os humildes serão exaltados.

Não necessariamente porque buscaram a exaltação.

Talvez justamente porque não viveram para ela.


O paradoxo de Juquinha

E aqui encontramos um dos aspectos mais belos de sua história.

Juquinha não teve um grande palácio.

A Serra tornou-se seu palácio.

Não teve um pedestal durante a vida.

A memória colocou-o sobre um.

Não precisou escrever seu nome na história.

Foi o povo que o escreveu.

Não precisou conquistar a Serra.

Ele pertenceu a ela.

Essa é uma diferença filosófica enorme.

Nossa civilização foi construída, em grande medida, sobre a ideia de posse: possuir terras, possuir coisas, possuir posições.

Juquinha nos apresenta outra possibilidade:

pertencer.

Possuir e pertencer são experiências completamente diferentes.

Quem possui afirma: “isto é meu”.

Quem pertence reconhece: “eu sou parte disto”.

Talvez por isso sua figura tenha adquirido tanta força simbólica. Porque sua relação com aquele território parece não ter sido de domínio, mas de integração.

Ele não venceu a montanha.

Ele caminhou com ela.


O homem real torna-se mito

Toda sociedade constrói seus mitos.

Não falo aqui de mito como mentira, mas como uma forma pela qual uma comunidade organiza simbolicamente aquilo que considera importante.

Quando uma personagem real ultrapassa sua existência individual e passa a carregar valores coletivos, ela entra em outra dimensão da memória.

É isso que aconteceu com Juquinha.

Hoje, muitas pessoas que jamais conversaram com José Patrício conhecem Juquinha.

Conhecem sua imagem.

Conhecem sua história.

Param diante de sua escultura.

Fotografam-se ao lado dela.

Contam sua história aos filhos.

E assim acontece algo extraordinário: um homem continua existindo dentro da memória de pessoas que nunca o conheceram.

É nesse instante que a biografia se aproxima do mito.

E o mito, quando permanece vivo, deixa de falar apenas sobre o personagem.

Passa a falar sobre nós.


Pintar Juquinha é pintar Minas

Talvez por isso esta obra tenha, para mim, um significado tão particular.

Sou mineiro.

E pintar Juquinha foi também olhar para a terra à qual pertenço.

Minas Gerais não é apenas um território administrativo delimitado no mapa brasileiro. É uma construção histórica e cultural complexa, plural, feita de muitas regiões, sotaques, memórias e formas de pertencimento. A pesquisa histórica sobre a mineiridade insiste justamente nessa pluralidade e adverte contra a tentativa de reduzir todas essas experiências a um único modelo.

E talvez seja exatamente essa pluralidade que torne Minas tão extraordinária.

Somos o barroco e a roça.

Somos a cidade e o sertão.

Somos universidade e conhecimento transmitido de geração em geração.

Somos pedra, minério, café, cozinha, música, literatura, fé, ciência, indústria, arte e montanha.

Somos muitas Minas.

E Juquinha pertence a uma delas que jamais deveria desaparecer: a Minas que reconhece dignidade no homem simples.

Por isso senti tanta alegria em retratá-lo.

Não como curiosidade folclórica.

Não como personagem pitoresco.

Mas com a dignidade de quem merece ocupar o espaço da arte.


O homem que virou Serra

Minha pintura nasce de uma pergunta recorrente: o que existe para além daquilo que vemos?

É nesse território que construo o Realismo Abstrato.

Parto da realidade reconhecível para procurar aquilo que permanece escondido entre forma, emoção, memória e matéria.

Com Juquinha, talvez a resposta tenha aparecido de maneira particularmente clara.

Por trás do homem havia uma paisagem.

Por trás da simplicidade havia grandeza.

Por trás do personagem havia um arquétipo.

E por trás do retrato havia Minas Gerais.

Quando observo “Juquinha — O Homem que Virou Serra”, não quero encontrar apenas José Patrício.

Quero encontrar alguma coisa de nós mesmos.

A memória dos que vieram antes.

A dignidade do trabalho.

O respeito pela terra.

A hospitalidade.

A fé.

A simplicidade que não significa pequenez.

E aquela sabedoria silenciosa que parece ter aprendido com as montanhas que permanecer é diferente de aparecer.

Juquinha apareceu pouco diante da grande história.

Mas permaneceu.

E talvez essa seja sua maior lição.

Porque, no final, os títulos passam.

Os cargos passam.

O poder passa.

A riqueza muda de mãos.

Mas algumas presenças encontram um lugar tão profundo na memória coletiva que já não podem ser retiradas dela.

José Patrício tornou-se Juquinha.

Juquinha tornou-se memória.

A memória tornou-se símbolo.

E o símbolo encontrou seu lugar definitivo entre as montanhas.

A Serra não está atrás de Juquinha.

Está dentro dele.

E talvez seja por isso que, quando passamos por aquele pedaço de Minas e encontramos sua figura entre as pedras, sentimos que ele ainda está ali.

Não apenas representado.

Presente.

Porque alguns homens passam pela terra.

Outros, de tão profundamente ligados a ela, acabam se tornando parte dela.

Juquinha virou Serra.

E a Serra, como Minas, não esquece.

Ramaya Vallias
Artista visual | Realismo Abstrato

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