REALISMO ABSTRATO: realidade, abstração e memória em uma nova linguagem artística – RAMAYA VALLIAS – Artista Visual

Há um momento na pintura em que representar já não é suficiente.

O rosto está diante de nós. Reconhecemos seus traços, seus olhos, sua expressão. A realidade está presente. Mas existe alguma coisa que a imagem, sozinha, não consegue explicar: a memória daquela presença, sua temperatura, sua força, seus silêncios, aquilo que sentimos antes mesmo de compreender.

Foi nesse território que comecei a construir minha própria lingagem artística.

Chamei-a de Realismo Abstrato.

O Realismo Abstrato, linguagem que criei a partir de minha pesquisa em pintura contemporânea, nasce do encontro entre a força narrativa do realismo e a liberdade emocional da abstração. Mas não se trata simplesmente de colocar elementos abstratos sobre uma imagem figurativa. Minha investigação procura algo diferente: utilizar realidade, abstração, cor, matéria e memória para construir presença.

“Não pinto apenas aquilo que vejo. Pinto aquilo que a presença provoca em mim.”
Ramaya Vallias

O que é o Realismo Abstrato?

O Realismo Abstrato é uma linguagem artística contemporânea na qual a figura permanece reconhecível, mas deixa de ser o limite da pintura.

O realismo oferece identidade, anatomia, expressão, gesto e reconhecimento. A abstração permite ultrapassar aquilo que os olhos conseguem registrar, introduzindo cor, matéria, fragmentação, transparências, vazios, sobreposições e diferentes níveis de definição.

Entre esses dois territórios surge um terceiro elemento fundamental em minha pesquisa:

a memória.

É por isso que sintetizo minha linguagem em três palavras:

REALIDADE · ABSTRAÇÃO · MEMÓRIA

A realidade nos permite reconhecer.

A abstração nos permite sentir.

A memória determina aquilo que permanece.

Essa tríade tornou-se um dos fundamentos do meu processo criativo e da maneira como compreendo minha produção dentro da arte contemporânea brasileira.

Não procuro abandonar a figura em direção à abstração. Também não utilizo a abstração apenas como recurso estético.

Procuro descobrir quanto de realidade é necessário para produzir presença.

Essa pergunta mudou minha pintura.

Construir, não desconstruir

Existe um princípio essencial para compreender o Realismo Abstrato: minha pintura não nasce da desconstrução da imagem. Ela nasce da construção da presença.

Essa distinção é fundamental.

Quando partes de um rosto, de um corpo ou de um ambiente parecem desaparecer em minhas obras, não penso nelas como algo que foi destruído ou apagado.

Penso exatamente no movimento contrário.

A figura está surgindo.

Ela emerge da matéria, da cor, das transparências, das texturas e do próprio espaço da tela. Algumas regiões alcançam grande definição, enquanto outras permanecem suspensas, quase no limite entre existência e ausência.

Um olhar pode estar completamente construído enquanto parte do rosto permanece apenas sugerida.

Uma mão pode carregar toda a memória de uma personagem.

Uma roupa pode começar figurativa e lentamente se transformar em matéria pictórica.

Um ambiente pode perder sua arquitetura objetiva e sobreviver apenas através da cor.

Na minha pintura contemporânea, aquilo que não está completamente representado não está necessariamente ausente.

Às vezes, está ainda mais presente.

“Minha pintura não procura reproduzir uma pessoa. Procura construir sua presença.”
Ramaya Vallias

Entre a arte figurativa e a abstração

Embora o Realismo Abstrato dialogue com a arte figurativa, com o realismo contemporâneo e com diferentes experiências da abstração, não considero minha pintura simplesmente uma fusão de estilos.

Existe uma investigação própria.

O retrato, para mim, é apenas o início.

Quando começo uma obra, existe uma imagem reconhecível. Mas, durante o processo, procuro descobrir aquilo que existe para além daquela aparência.

Quem é essa presença?

O que existe naquele olhar?

Que memória aquela imagem carrega?

O que precisa permanecer definido?

O que pode existir apenas como vestígio?

É nesse momento que realidade e abstração deixam de ser opostas.

Elas começam a colaborar.

A figura oferece um território de reconhecimento. A abstração introduz aquilo que não pode ser facilmente nomeado.

“A abstração começa onde a representação já não consegue explicar tudo.”
Ramaya Vallias

A cor não acompanha a figura. A cor conversa com ela.

A cor ocupa um lugar central no meu Realismo Abstrato.

Antes de iniciar determinadas obras, procuro compreender aquilo que denomino temperatura da presença.

Não penso apenas: quais cores combinam?

Pergunto:

Que cor essa pessoa carrega?

Que temperatura existe nessa memória?

Existe silêncio nessa presença?

Existe força?

Existe ruptura?

Existe delicadeza?

Existe inquietação?

É a partir dessas perguntas que construo minha paleta cromática.

Por isso, as cores utilizadas em meus retratos nem sempre correspondem às cores existentes na fotografia ou na referência original.

Um azul pode representar introspecção.

Um vermelho pode produzir tensão ou vitalidade.

Um amarelo pode introduzir energia.

Um rosa pode retirar determinada figura de sua temporalidade histórica e transportá-la para uma percepção contemporânea.

Um negro pode funcionar não apenas como sombra, mas como profundidade.

O branco pode deixar de ser fundo e tornar-se silêncio.

A cor, portanto, não ilustra.

A cor interpreta.

“Antes de pintar uma presença, procuro descobrir sua temperatura.”
Ramaya Vallias

Essa relação entre cor, memória e presença tornou-se uma das características fundamentais do meu processo criativo.

A abstração como informação

Também existe outro princípio importante: no Realismo Abstrato, a abstração não é decoração.

Cada ruptura precisa ter uma razão.

Cada mancha precisa participar da narrativa.

Cada vazio precisa respirar dentro da obra.

Uma área abstrata pode representar memória, passagem do tempo, conflito, energia, silêncio ou simplesmente aquilo que não conseguimos explicar racionalmente diante de alguém.

Por isso, não existe uma porcentagem fixa entre realismo e abstração.

Cada obra determina sua própria medida.

Existem pinturas em que o rosto precisa permanecer quase completamente reconhecível. Em outras, poucos elementos são suficientes para sustentar toda a presença.

A pergunta permanece:

o que precisa existir para que aquela presença continue viva?

O Realismo Abstrato e a memória

A memória humana nunca preserva tudo com a mesma intensidade.

Esse fenômeno me interessa profundamente.

Quando pensamos em alguém que encontramos há muitos anos, talvez não consigamos reconstruir perfeitamente sua roupa, o ambiente ou todos os detalhes de seu rosto.

Mas alguma coisa permanece extraordinariamente nítida.

Os olhos.

Um sorriso.

Uma postura.

Uma frase.

Uma cor.

Uma sensação.

É assim que compreendo a relação entre arte e memória dentro da minha pintura.

Não quero necessariamente oferecer ao espectador todas as informações.

Quero permitir que algumas permaneçam e que outras sejam completadas por ele.

Nesse sentido, o espectador também participa da construção da obra.

Ele reconhece.

Depois interpreta.

Depois sente.

E finalmente traz sua própria memória para aquilo que está vendo.

Mestres e Influências: quando pintar se transforma em diálogo

Minha pesquisa em Realismo Abstrato ganhou uma dimensão particularmente importante no projeto Mestres e Influências – A Construção do Olhar.

Ao dialogar com grandes mestres da história da arte e com personagens que atravessaram minha formação, compreendi que não queria simplesmente reinterpretar aquilo que eles haviam produzido.

Não me interessava copiar uma pintura histórica utilizando uma linguagem contemporânea.

A pergunta precisava ser outra.

Diante de um mestre, comecei a pensar:

não quero pintar novamente aquilo que ele pintou. Quero compreender aquilo que ele viu.

Essa mudança transformou o processo.

“Não quero pintar novamente aquilo que um mestre pintou. Quero conversar com aquilo que ele viu.”
Ramaya Vallias

É por isso que utilizo frequentemente a palavra diálogo.

Quando dialogo artisticamente com Van Gogh, Vermeer, Portinari, Basquiat, Tarsila do Amaral ou tantos outros mestres e influências, não procuro ocupar suas linguagens.

Procuro encontrar a minha diante delas.

Eles fizeram uma pergunta através de suas obras.

Décadas ou séculos depois, eu respondo através da minha pintura.

Assim, o passado deixa de ser apenas referência histórica.

Ele volta a ser conversa.

Pintar presença, não apenas aparência

Talvez esta seja uma das definições mais importantes da minha linguagem artística:

Eu não quero pintar apenas a aparência. Quero pintar a presença.

A aparência pertence ao reconhecimento.

A presença pertence à experiência.

Existe uma diferença profunda entre olhar para um retrato e reconhecer uma pessoa e permanecer diante de uma obra sentindo que existe algo naquela imagem que ultrapassa sua representação.

É esse segundo território que me interessa.

Quero que o espectador se aproxime da pintura reconhecendo alguma coisa e, depois, descubra que não consegue compreender tudo imediatamente.

Quero que seus olhos caminhem.

Que encontrem áreas construídas e outras apenas sugeridas.

Que percebam matéria.

Cor.

Fragmentos.

Silêncios.

E que, em determinado momento, deixem de perguntar apenas:

“Quem estou vendo?”

para começar a perguntar:

“O que esta presença está provocando em mim?”

Nesse instante, a obra começa verdadeiramente a acontecer.

Uma linguagem brasileira apresentada ao mundo

Criar uma linguagem artística não significa estabelecer uma fórmula imutável.

Ao contrário.

Uma linguagem precisa continuar produzindo perguntas.

O Realismo Abstrato que apresento ao mundo nasce da minha experiência como artista brasileiro, da minha relação com a história da arte, da observação dos mestres, da cultura, das pessoas, das cidades, da memória e das experiências que atravessam minha própria trajetória.

Por isso, considero importante situá-lo também dentro da discussão da arte brasileira contemporânea.

Não como uma tentativa de criar fronteiras, mas como afirmação de origem.

Minha pintura nasce no Brasil, dialoga com o mundo e retorna constantemente às perguntas universais que sempre acompanharam a arte:

Quem somos?

O que vemos?

O que sentimos?

O que esquecemos?

E, principalmente:

o que permanece?

O que permanece depois que deixamos de olhar?

Talvez essa seja a pergunta que hoje mais profundamente orienta minha pesquisa.

Vivemos no período de maior produção de imagens da história humana.

Fotografamos pessoas, viagens, refeições, cidades, acontecimentos e praticamente todos os momentos de nossas vidas.

Nunca produzimos tantas imagens.

E talvez nunca tenhamos passado tão pouco tempo diante delas.

Essa contradição me interessa.

Porque minha pintura propõe justamente o contrário.

Permanecer.

Olhar novamente.

Permitir que uma imagem revele diferentes camadas.

Perceber aquilo que não aparece imediatamente.

Descobrir que memória não é reprodução perfeita da realidade.

Memória é seleção.

Algumas coisas desaparecem.

Outras permanecem.

E algumas, curiosamente, tornam-se ainda mais fortes depois que deixamos de vê-las.

É nesse território que continuo construindo o meu Realismo Abstrato.

“O Realismo Abstrato começa na realidade, atravessa a abstração e encontra sua permanência na memória.”
Ramaya Vallias

Não considero essa frase um ponto final.

Considero uma porta.

Porque cada nova pintura volta a me fazer a mesma pergunta:

quanto de uma imagem precisa permanecer para que sua presença continue existindo?

Talvez eu passe muitos anos tentando responder.

E talvez seja exatamente por isso que continuo pintando.

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