A Palavra Tem Rosto: Profeta Gentileza e aquilo que permanece

Por Ramaya – Artista Visual – Realismo Abstrato

Antes de ser lembrado por uma frase, Gentileza fez da própria existência uma linguagem. Seu rosto, a barba longa, a escrita inconfundível e a maneira de ocupar a cidade tornaram-se partes de uma mesma construção simbólica. Com o tempo, José Datrino deixou de habitar apenas sua própria biografia para permanecer no imaginário brasileiro como imagem, palavra e presença. Foi exatamente essa fusão que me interessou pintar: não o homem separado de sua mensagem, mas o instante em que já não sabemos onde termina o rosto e onde começa aquilo que ele deixou no mundo.

Quando comecei a pensar nele dentro de Mestres e Influências, percebi que não queria simplesmente pintar José Datrino. Também não me interessava produzir uma homenagem ou reconstruir sua aparência. O que me inquietava era outra questão: o que permanece de um homem quando sua voz já não pode mais ser ouvida, mas suas palavras continuam circulando entre nós?

Essa pergunta encontra diretamente a pesquisa que venho desenvolvendo na terceira fase de Mestres e Influências, intitulada O que permanece.

Quando a imagem sobrevive à própria história

Minha investigação no Realismo Abstrato nasceu da relação entre figura e abstração, mas progressivamente passou a tratar também de memória, tempo e permanência.

Na Fase III, uma pergunta tornou-se especialmente importante para mim: O que resta de uma imagem depois que esquecemos sua história?

Não se trata necessariamente de apagar a história. Trata-se de perceber que, com o passar do tempo, alguns detalhes biográficos desaparecem enquanto determinadas imagens permanecem extraordinariamente vivas.

Talvez não conheçamos todos os episódios da vida de uma pessoa. Talvez não saibamos datas, lugares ou circunstâncias. Ainda assim, reconhecemos um rosto, um gesto, uma frase, uma maneira de ocupar o mundo.

É nesse território que encontro o Profeta Gentileza.

José Datrino transformou a própria existência em linguagem. Sua barba, sua indumentária, sua caligrafia, seus símbolos e suas palavras constituíram uma presença visual tão poderosa que acabaram ultrapassando a biografia do homem.

Ele não apenas pronunciava mensagens.

Ele tornou-se parte da própria mensagem.

A cidade como superfície da palavra

Gentileza compreendeu intuitivamente algo que a arte contemporânea conhece muito bem: uma ideia muda quando muda o lugar onde é apresentada.

Suas palavras não estavam protegidas pelas paredes de um museu. Estavam na cidade.

Nos pilares do Viaduto do Gasômetro, no Rio de Janeiro, sua escrita encontrou concreto, ruído, movimento, trânsito e cotidiano. A cidade deixou de ser apenas cenário e tornou-se suporte.

Palavras, números, símbolos e uma caligrafia absolutamente particular formaram uma espécie de cartografia espiritual urbana.

É justamente esse aspecto que mais me interessa como artista.

Porque existe uma enorme diferença entre escrever uma frase em uma folha de papel e inscrevê-la repetidamente no espaço público. No segundo caso, a palavra ganha corpo. Torna-se imagem. Passa a disputar espaço com a arquitetura, com a publicidade, com os automóveis, com a pressa e com o esquecimento.

E algumas dessas palavras sobreviveram.

“Gentileza gera gentileza” ultrapassou seu autor e tornou-se parte do imaginário brasileiro.

Quando uma frase chega a esse ponto, ela já não pertence inteiramente a quem a escreveu. Ela começa a pertencer à memória coletiva.

Pintar Gentileza sem ilustrar Gentileza

Foi justamente aí que surgiu o desafio da pintura.

Eu não queria colocar o rosto de um lado e suas frases do outro, como se a obra simplesmente apresentasse personagem e contexto.

Queria que ambos nascessem da mesma matéria.

Em A Palavra Tem Rosto, o rosto ocupa grande parte da superfície, mas a escrita também reivindica sua presença. Ela aparece comprimida, interrompida, parcialmente legível, mergulhada em vermelhos, vinhos, terras e negros.

Não é uma legenda. Não explica o personagem.

A escrita também é personagem.

Da mesma maneira, o rosto não pretende reproduzir uma fotografia. Ele é construído por massas cromáticas, espessuras, contrastes e intervalos.

Verdes mentolados, turquesas e brancos constroem a luminosidade da face e da barba. Em oposição, bordôs, rosas queimados, vermelhos terrosos e negros criam uma região de maior densidade.

A cor deixa, portanto, de obedecer à aparência natural.

Ela passa a falar de estados.

O verde pode ser presença. O vinho, memória. O vermelho, pulsação. O negro, silêncio. O branco, permanência.

É nesse momento que o retrato começa a deixar de ser apenas retrato.

Construir, não desconstruir

Há uma distinção fundamental em minha pesquisa atual: não estou interessado em destruir a imagem para chegar à abstração.

Estou interessado em construí-la através dela.

Essa diferença é essencial para compreender meu Realismo Abstrato.

A figura continua existindo. O reconhecimento permanece possível. Mas nem tudo precisa ser entregue ao observador com o mesmo grau de definição.

Algumas regiões tornam-se matéria. Outras permanecem quase gráficas. Algumas informações desaparecem na tinta enquanto outras surgem com enorme intensidade.

Em A Palavra Tem Rosto, os olhos são particularmente importantes.

Eles estabelecem contato.

Há convicção, vigilância e interioridade naquele olhar. Ao redor deles, porém, a matéria ganha liberdade. A barba se expande. O rosto encontra o fundo. As inscrições atravessam a composição. Pequenas linhas percorrem a superfície.

O figurativo ancora. O abstrato expande. E a memória conecta os dois.

Quando a abstração passa a carregar informação

Durante muito tempo, a abstração foi compreendida como aquilo que se afastava do reconhecível. Na pesquisa que venho desenvolvendo, procuro pensar de outra maneira.

A abstração pode conter informação.

Uma mancha pode falar de tempo.

Uma espessura pode sugerir memória.

Uma cor pode revelar uma tensão psicológica que a anatomia não conseguiria mostrar.

Um trecho incompleto pode permanecer mais intensamente na imaginação do que uma imagem totalmente resolvida.

Por isso, a matéria pictórica não funciona como decoração ao redor do personagem. Ela participa da construção de sua identidade.

No Realismo Abstrato, procuro justamente esse ponto de tensão: aquilo que reconhecemos encontra aquilo que sentimos, mas não conseguimos nomear.

E entre esses dois territórios surge a memória.

O que permanece?

Talvez essa seja a verdadeira questão de A Palavra Tem Rosto.

O que permaneceu de Gentileza?

Seu rosto?

Sua barba?

Sua caligrafia?

Os pilares que pintou?

Sua história?

Sua frase?

Provavelmente tudo isso. Mas talvez exista ainda outra coisa.

Permaneceu uma maneira de acreditar que a palavra pode interferir na realidade.

E é justamente por isso que, nesta obra, não consigo separar completamente rosto e escrita.

A palavra possui a memória de quem a pronunciou. O rosto carrega aquilo que foi dito.

Os dois se contaminam.

Os dois sobrevivem.

É aqui que esta pintura encontra a investigação maior de Mestres e Influências — Fase III: O que permanece. Já não me interessa somente perguntar quem foi determinada pessoa ou como sua imagem chegou até nós.

Interessa-me perguntar por que algumas presenças continuam habitando nossa memória mesmo depois que o tempo começa a apagar seus contornos.

Talvez seja justamente aí que a pintura possa alcançar algo que a fotografia e a biografia não alcançam completamente.

Não apenas aquilo que aconteceu.

Não apenas aquilo que vimos.

Mas aquilo que ficou em nós depois que deixamos de olhar.

E, diante do Profeta Gentileza, encontro uma possibilidade ainda mais radical:

às vezes, aquilo que permanece de um homem é uma palavra.
E algumas palavras, depois de atravessarem o tempo, passam a ter rosto.

Ramaya
Realismo Abstrato · Mestres e Influências · Fase III — O que permanece

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