O Studio

Onde existo de forma diferente

Quando atravesso sua porta, deixo do lado de fora uma parte do ruído do mundo. Ali, o tempo adquire outra medida. As horas deixam de ser contadas pelo relógio e passam a ser percebidas pela luz que muda, pela tinta que vai secando, pela música que ouço, por uma tela que começa a revelar algo que, até então, eu apenas sentia.

Meu studio é um lugar sagrado. É onde habita minha alma.

É nele que minhas inquietações encontram matéria. Onde pensamentos se transformam em cor, memórias ganham textura e rostos deixam de ser apenas rostos para se tornarem presença.

Aqui nasceu e continua se desenvolvendo minha linguagem, o Realismo Abstrato. Não como uma fórmula que decidi seguir, mas como consequência de uma necessidade interior: encontrar um território entre aquilo que os olhos reconhecem e aquilo que somente a sensibilidade consegue perceber.

Por isso, quando entro no studio, não entro apenas para pintar.

Entro para procurar.

Procuro aquilo que permanece por trás de uma imagem. Procuro a memória escondida em um rosto, a emoção contida em um gesto, a temperatura de uma personalidade, aquilo que existe entre a realidade visível e a realidade sentida.

Talvez por isso eu diga tantas vezes que não procuro simplesmente retratar alguém. Procuro construir uma presença.

É também neste espaço que converso silenciosamente com aqueles que vieram antes de mim.

Van Gogh, Vermeer, Portinari, Basquiat, Tarsila, Millet e tantos outros atravessam este lugar não como referências a serem reproduzidas, mas como interlocutores. Diante deles, minha pergunta nunca é apenas “o que este artista pintou?”. Minha inquietação vai além:

O que ele viu?

E, depois:

O que eu vejo agora?

É nessa distância entre dois olhares, separados pelo tempo, que muitas das minhas obras começam.

É o meu território de encontros.

Aqui encontro os mestres que formaram meu olhar. Encontro as pessoas que decidi retratar. Encontro lembranças que pensei ter esquecido. Encontro perguntas para as quais ainda não tenho resposta.

E, principalmente, encontro a mim mesmo.

Realidade. Abstração. Memória.

A realidade oferece o ponto de partida.
A abstração permite atravessá-la.
A memória decide o que permanece.

Meu studio é o lugar onde essas três dimensões se encontram.

“A arte nasce em nós, cresce conosco e se manifesta quando encontra forma.”

Meu studio é justamente esse lugar.

Meu studio não é apenas onde eu pinto.

É onde habita minha alma.

Ramaya
Artista visual | Realismo Abstrato

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