Mestres e Influências: do olhar à memória, uma pesquisa em Realismo Abstrato
Há uma diferença fundamental entre olhar para a história da arte e permanecer preso a ela. É justamente nesse intervalo que se desenvolve Mestres e Influências, projeto do artista visual Ramaya, construído a partir de sua linguagem autoral, o Realismo Abstrato.
A proposta nasce de uma constatação simples: nenhum artista começa do zero. Antes de uma linguagem própria, existem imagens, encontros, livros, fotografias, músicas, artistas e experiências que educam silenciosamente o olhar. O próprio Ramaya já definiu publicamente essa relação com seus mestres não como reprodução, mas como conversa: cada mestre oferece uma espécie de pergunta à qual o artista responde a partir do presente e de sua própria linguagem.
É importante compreender esse ponto porque ele estabelece a essência de Mestres e Influências: Ramaya não procura copiar, reproduzir ou simplesmente homenagear os artistas que vieram antes dele. Também não pretende pintar “à maneira de” Van Gogh, Picasso, Monet, Iberê Camargo ou qualquer outra referência.
O que lhe interessa é outra coisa: dialogar.
O mestre entra na obra como interlocutor, não como modelo a ser repetido. Ramaya procura compreender o que determinada imagem, linguagem ou artista acrescentou à nossa maneira de perceber o mundo e, a partir dessa descoberta, responde com a sua própria voz pictórica. Essa intenção já estava presente na primeira apresentação pública do projeto, quando o artista afirmou que a influência é o início, enquanto a linguagem própria é o destino.
O Realismo Abstrato como linguagem
É dentro do Realismo Abstrato, linguagem desenvolvida por Ramaya, que essa conversa acontece.
Realismo e abstração deixam de funcionar como territórios opostos. O realismo oferece estrutura, reconhecimento e presença. A abstração introduz aquilo que não pode ser inteiramente descrito: emoção, memória, tempo, silêncio, identidade, tensão e experiência.
Por isso, a realidade não é o destino final da pintura. É seu ponto de partida.
Uma figura pode permanecer reconhecível, mas cores, texturas, fragmentações, apagamentos, matéria e gestos interferem naquilo que vemos. A abstração não aparece para destruir a figura. Ela acrescenta à figura informações que a representação objetiva não conseguiria oferecer sozinha. Essa combinação entre presença figurativa e dimensão subjetiva está no centro da definição que o próprio artista apresenta para o Realismo Abstrato.
É a partir dessa linguagem que Mestres e Influências se organiza em três movimentos. Eles não são três projetos independentes. Formam uma sequência de aprofundamento: olhar, consciência e memória.
Movimento I · A Construção do Olhar
O primeiro movimento começa com uma pergunta:
Como aprendemos a olhar?
Em A Construção do Olhar, Ramaya retorna aos mestres para investigar não somente aquilo que eles pintaram, mas principalmente como transformaram nossa maneira de enxergar.
Van Gogh, por exemplo, interessa menos como autor de uma imagem a ser reproduzida e mais como alguém que alterou profundamente nossa percepção da cor, da matéria e da emoção. O mesmo princípio pode ser aplicado às demais influências: o artista procura aquilo que cada uma delas introduziu na história do olhar.
Cor, composição, luz, gesto, matéria e estrutura passam a funcionar como documentos de uma maneira de pensar.
Nesse primeiro movimento, portanto, Ramaya olha para trás para compreender a formação do próprio olhar. A história da arte deixa de ser um catálogo de imagens consagradas e torna-se uma espécie de genealogia visual.
A pergunta não é: “Como posso pintar como eles?”
É: “O que eles modificaram na maneira como hoje enxergamos o mundo?”
Esse princípio esteve no centro da exposição Mestres e Influências: A Construção do Olhar, apresentada no Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte, em 2026.
Movimento II · A Revelação da Personalidade Escondida
No segundo movimento, ocorre uma mudança importante.
Se o primeiro investigava como vemos, o segundo pergunta:
O que existe além daquilo que vemos?
Em A Revelação da Personalidade Escondida, o personagem deixa de ser somente uma identidade reconhecível. O retrato passa a funcionar como território psicológico, emocional e simbólico.
Ramaya procura atravessar a superfície.
O rosto continua importante, mas já não basta. Cor, matéria, referências, fragmentos, gestos e abstrações procuram revelar dimensões que uma fotografia ou um retrato convencional dificilmente poderiam registrar.
Não se trata apenas de pintar a aparência de alguém, mas de construir pictoricamente sua presença.
É nesse movimento que ganha força a ideia de Consciência Pictórica. A pintura começa a refletir sobre si própria: sobre aquilo que mostra, aquilo que esconde e aquilo que somente a linguagem pictórica consegue tornar perceptível.
A pergunta deixa de ser apenas “quem é essa pessoa?” e passa a incluir outra, muito mais complexa:
“O que existe nessa presença que os olhos, sozinhos, não conseguem alcançar?”
Se no Movimento I o protagonista era o olhar, no Movimento II o protagonista passa a ser a consciência.
Movimento III · O que permanece
O terceiro movimento leva a pesquisa a outro território.
Depois de perguntar como aprendemos a olhar e o que existe além da aparência, Ramaya chega a uma questão ainda mais radical:
O que continua existindo em nós depois que deixamos de olhar?
É o nascimento de O que permanece.
Aqui, a biografia começa a perder centralidade. O rosto não precisa mais dominar a composição. Em determinadas obras, ele pode fragmentar-se, desaparecer ou sobreviver apenas parcialmente.
Talvez reste uma mão.Uma cadeira. Uma arquitetura. Uma sombra. Uma cor. Uma roupa. Uma paisagem. Um gesto. Um fragmento.
O interesse desloca-se da representação para o vestígio.
A pintura passa a perguntar o que sobrevive quando o nome, a narrativa e até partes da própria imagem começam a desaparecer. Nesse momento, a memória deixa de ser apenas tema e passa a funcionar como elemento estrutural da linguagem.
Três forças passam, então, a operar conjuntamente:
REALIDADE é aquilo que reconhecemos.
ABSTRAÇÃO é aquilo que não conseguimos nomear.
MEMÓRIA é aquilo que conecta as duas.
É uma transformação decisiva. A abstração deixa definitivamente de ser recurso ornamental e passa a carregar informação. Um apagamento pode significar esquecimento. Uma textura pode conter tempo. Uma sobreposição pode fazer diferentes épocas coexistirem. Um vazio pode dizer tanto quanto uma figura.
A pintura aproxima-se, assim, de uma espécie de arqueologia da imagem. Ela não tenta reconstruir tudo aquilo que existiu. Procura descobrir aquilo que resistiu.
Três movimentos, três perguntas
É justamente a diferença entre os três movimentos que dá unidade e potência ao projeto.
O Movimento I investiga a formação do olhar:
Como aprendemos a ver?
O Movimento II atravessa a aparência:
O que existe além daquilo que vemos?
O Movimento III investiga a permanência:
O que continua existindo em nós depois que deixamos de olhar?
Há, portanto, um percurso conceitual muito claro:
OLHAR → CONSCIÊNCIA → MEMÓRIA
E existe também um deslocamento progressivo da própria imagem.
Primeiro, Ramaya investiga aquilo que o mestre nos ensinou a enxergar. Depois, aquilo que o personagem não revela imediatamente. Finalmente, aquilo que consegue sobreviver mesmo quando o personagem começa a desaparecer.
A potência de Mestres e Influências na arte contemporânea
É nesse terceiro estágio que se torna particularmente evidente a abertura contemporânea do projeto.
Mestres e Influências pode começar em Van Gogh, Picasso, Monet ou Iberê, mas não precisa terminar nos mestres.
Uma vez que o problema central passa a ser percepção, consciência e memória, a pesquisa pode alcançar uma fotografia familiar, uma carta antiga, uma cadeira vazia, um edifício, uma paisagem, uma roupa esquecida, um objeto cotidiano ou uma pessoa anônima.
O personagem famoso deixa de ser condição para a existência da obra.
Isso amplia significativamente o campo de investigação do Realismo Abstrato. A pesquisa deixa de tratar apenas da relação de um artista contemporâneo com a história da arte e passa a enfrentar uma questão universal:
por que algumas imagens desaparecem enquanto outras permanecem dentro de nós?
A força contemporânea de Mestres e Influências está justamente aí. Em uma época inundada por imagens, Ramaya não pergunta apenas o que estamos vendo. Pergunta o que sobreviverá ao excesso de tudo aquilo que vemos.
Assim, tradição e contemporaneidade deixam de ocupar extremos opostos. O passado transforma-se em matéria para produzir novas perguntas.
Ramaya não procura falar pelos mestres.
Não procura falar como os mestres.
Procura falar com eles.
E, depois dessa conversa, responder com sua própria voz.
Talvez essa seja a síntese mais precisa de todo o percurso de Mestres e Influências e do próprio Realismo Abstrato:
“Não pinto para repetir aquilo que outros olhos já viram. Dialogo com o que veio antes para descobrir o que ainda pode nascer agora. Entre realidade, abstração e memória, minha pintura começa onde a imagem termina e permanece onde o olhar já não alcança.”
— Ramaya