Freud, Monet e o Realismo Abstrato em uma reflexão sobre imagem, memória, consciência e aquilo que permanece sob a superfície
Algumas pinturas começam com uma imagem. Outras começam com uma pergunta. O Jardim do Inconsciente nasceu das duas coisas.
Criei esta obra para Laura e Cézar, a partir de uma aproximação inicialmente afetiva: o interesse por dois personagens fundamentais da cultura moderna, Sigmund Freud e Claude Monet. Quanto mais pensava nessa combinação, mais percebia que não se tratava simplesmente de colocar duas referências dentro de uma mesma tela. Havia entre elas uma relação conceitual muito mais profunda.
Monet passou grande parte de sua trajetória investigando aquilo que acontece diante dos olhos quando a realidade encontra a luz. Freud dedicou sua vida a investigar aquilo que acontece dentro de nós quando a consciência encontra aquilo que não consegue controlar. Um olha a superfície. O outro procura aquilo que existe sob ela. E foi nesse intervalo que encontrei a pintura.
O jardim como território da mente
Os jardins de Monet nunca me interessaram apenas como paisagem. Há neles uma experiência particular do olhar. A água recebe o céu, as plantas, a luz, o tempo e o movimento. O que vemos não é exatamente o objeto, mas sua transformação pela percepção. Quando Monet pinta seus nenúfares, a água deixa de ser simplesmente água. Ela se torna superfície de aparição. Não sabemos exatamente onde termina a paisagem e onde começa o reflexo. Essa questão dialoga profundamente com Freud. Também para Freud aquilo que aparece nunca é necessariamente tudo aquilo que existe. Um sonho pode carregar outra narrativa. Um esquecimento pode esconder um conflito. Uma palavra aparentemente acidental pode revelar uma associação. Uma lembrança pode ser atravessada por desejos, afetos e experiências que permaneceram fora do campo imediato da consciência. A psicanálise introduziu uma perturbação extraordinária na ideia moderna de indivíduo: não somos completamente transparentes para nós mesmos.
Talvez seja justamente aí que arte e psicologia se encontrem. A obra de arte também não se oferece inteiramente de uma vez. Ela possui superfície e profundidade. Evidência e silêncio. Forma e ausência. Aquilo que reconhecemos e aquilo que apenas sentimos.
Freud entre os nenúfares
Em O Jardim do Inconsciente, não quis pintar Freud dentro de um quadro de Monet. Isso seria uma associação ilustrativa, quase literal, e não era esse o caminho que me interessava. Também não quis reproduzir Monet.
Meu desejo era permitir que os dois universos contaminassem silenciosamente a construção da pintura. Ao observar a obra concluída, percebi com maior clareza que ela se organiza em três planos. O primeiro é o retrato. Freud permanece reconhecível. Os óculos, o rosto, a direção do olhar e sua presença intelectual funcionam como elementos de ancoragem. Precisamos reconhecer o homem antes de atravessarmos aquilo que existe para além dele. O segundo plano é a matéria. A tinta invade a figura, interrompe contornos, cria espessuras, estabelece campos cromáticos e transforma partes do rosto em acontecimentos pictóricos. Mas há aqui uma distinção essencial dentro da minha pesquisa: não estou desconstruindo Freud. Estou construindo sua presença. A fragmentação, no meu trabalho, não representa necessariamente deterioração. Ao contrário, pode representar surgimento. A figura parece nascer da matéria, como se estivesse adquirindo forma diante do observador. Finalmente existe o terceiro plano: a paisagem. Ela aparece discretamente por meio das atmosferas aquáticas, dos azuis e verdes, das áreas luminosas e das formas vegetais que evocam os nenúfares. Monet está presente, mas não como reprodução. Está presente como memória pictórica. E é nesse terceiro plano que o retrato começa a se transformar em pensamento.
ssa construção toca diretamente uma das questões que venho investigando no Realismo Abstrato. Parto da figura porque necessito da presença. Mas não quero permanecer limitado à aparência. O figurativo oferece identidade, memória, história. O abstrato abre aquilo que a representação objetiva não consegue explicar completamente: emoção, instabilidade, tempo, lembrança, silêncio, conflito, energia. Entre esses dois territórios surge um terceiro espaço. É nele que meu trabalho acontece. Não me interessa abandonar a realidade para chegar à abstração. Interessa-me atravessar a realidade até encontrar aquilo que ela contém e não mostra. Por isso, quando a matéria pictórica invade o rosto de Freud, ela não o apaga. Ela procura ampliar sua presença. A pergunta deixa de ser apenas “quem é este homem?” e passa a ser: “o que existe dentro deste homem?” E talvez exista ainda uma pergunta mais perturbadora: “o que este homem descobriu que existe dentro de todos nós?”
Existe uma antiga inquietação filosófica por trás dessa questão. Desde Platão, a cultura ocidental interroga a relação entre aparência e essência. Séculos depois, a filosofia continuaria perguntando se aquilo que percebemos corresponde efetivamente ao mundo ou se toda realidade chega até nós atravessada pela consciência. A arte habita precisamente essa fissura. Um retrato nunca é apenas um rosto. Existe a pessoa retratada, existe o olhar do artista sobre essa pessoa e existe ainda o olhar daquele que observa a obra. Entre esses três pontos, a imagem deixa de possuir um significado fechado. Ela começa a respirar. Por isso considero importante que minhas pinturas não entreguem tudo imediatamente.
Quero que exista reconhecimento, mas também resistência. Quero que o observador veja Freud e, alguns segundos depois, deixe de ver apenas Freud. Que perceba a tinta. Depois a água. Depois as flores. Depois o vazio. Depois talvez volte aos olhos. Esse movimento do olhar também é uma forma de pensamento.
Monet oferece o jardim. Freud revela sua profundidade.
A relação entre Freud e Monet tornou-se, para mim, ainda mais interessante quando percebi que ambos trabalharam, de maneiras absolutamente distintas, com a ideia de profundidade.
Monet olha para a água e encontra o céu.
Freud olha para a consciência e encontra o inconsciente.
Um transforma superfície em profundidade visual.
O outro transforma comportamento em profundidade psíquica.
Na pintura, tentei aproximar essas duas experiências.
Os azuis, turquesas, verdes aquosos e brancos constroem uma atmosfera que pertence simultaneamente à paisagem e à mente. Já as áreas muito escuras concentram Freud no centro da composição e dão peso psicológico à figura.
E então surgem pequenas regiões avermelhadas.
Elas interrompem a serenidade dos azuis.
Para mim, funcionam quase como pulsações.
Podem ser desejo. Memória. Ferida. Energia. Vida.
Não precisam possuir uma tradução definitiva.
A cor também pertence ao inconsciente da pintura.
Há ainda uma dimensão fundamental nessa obra: a matéria.
Gosto de pensar que, em determinados momentos, a tinta deixa de representar alguma coisa e passa a possuir existência própria.
Ela acumula, cobre, revela, interrompe, escorre, encontra outra cor.
Nesse momento, a pintura começa a produzir sentidos que não foram inteiramente planejados.
E isso me interessa profundamente.
Existe sempre uma tensão entre controle e acontecimento no processo artístico.
O artista decide, mas a matéria responde.
O artista conduz, mas também observa.
Talvez exista aí uma aproximação inesperada com o próprio pensamento psicanalítico: nem tudo aquilo que emerge durante um processo estava completamente disponível à consciência no momento em que ele começou.
Às vezes, compreendo uma obra depois de terminá-la.
Percebo relações que estavam acontecendo silenciosamente enquanto eu pintava.
A pintura também revela coisas ao pintor.
A realidade escondida
Minha pesquisa atual tem se aproximado cada vez mais dessa ideia: a revelação da realidade escondida.
Não significa procurar algum segredo biográfico dos personagens que retrato. O que me interessa é algo mais amplo.
Quero investigar aquilo que permanece invisível entre forma, emoção, memória e matéria.
Quando retrato uma personalidade que atravessou a história, não quero simplesmente repetir a imagem que já conhecemos dela. Fotografias, livros e arquivos já fizeram esse trabalho.
A pintura precisa perguntar outra coisa.
O que permanece?
Que espécie de presença aquela pessoa deixou no imaginário coletivo?
Que pensamentos continuam circulando muito depois de seu desaparecimento físico?
É por isso que, em O Jardim do Inconsciente, Freud não aparece isolado diante de um fundo neutro.
Ele está imerso.
A figura pertence ao ambiente e o ambiente parece pertencer à figura.
O jardim pode estar ao redor dele.
Mas também pode estar dentro dele.
Talvez sejamos todos jardins
Um jardim é uma construção curiosa.
Há aquilo que plantamos deliberadamente e aquilo que nasce sem convite. Existem regiões iluminadas e outras que permanecem escondidas. Algumas espécies florescem rapidamente; outras precisam de anos. Há raízes que não vemos sustentando aquilo que vemos.
Talvez a mente humana também possua algo dessa arquitetura.
Carregamos experiências que reconhecemos e outras das quais percebemos apenas os efeitos. Memórias preservadas, lembranças modificadas pelo tempo, desejos, medos, afetos, perdas e imagens que continuam trabalhando silenciosamente dentro de nós.
A arte não precisa explicar esse território.
Talvez sua potência esteja justamente em torná-lo sensível.
Por isso, O Jardim do Inconsciente não pretende oferecer uma resposta sobre Freud ou Monet.
Prefiro que permaneça como uma pergunta pictórica.
Diante da obra, reconhecemos um rosto. Depois percebemos que esse rosto está atravessado por matéria. Depois descobrimos uma paisagem. E, quando pensamos finalmente ter compreendido a paisagem, talvez percebamos que ela não está atrás da figura.
Ela está dentro dela.
Essa é uma das questões que movem meu Realismo Abstrato: pintar a presença sem aprisioná-la na aparência.
Porque entre aquilo que mostramos ao mundo e aquilo que silenciosamente nos constitui existe um território imenso.
Freud chamou parte desse território de inconsciente.
Monet encontrou sobre a água uma maneira de tornar o invisível perceptível pela luz.
Eu continuo procurando esse lugar através da pintura.
Ramaya
Artista visual | Criador do Realismo Abstrato