Frans Krajcberg e a contemporaneidade: entre algoritmos, inteligência artificial e florestas, o futuro ainda nasce das raízes.
Por Ramaya Vallias – Artista Visual – Psicoteólogo
Enquanto pintava minha releitura de Frans Krajcberg para a exposição Mestres e Influências, uma lembrança antiga voltou à minha memória. Eu devia ter cerca de doze anos quando um professor sugeriu uma redação sobre desmatamento. Não me recordo de uma única linha do texto. O tempo levou as palavras. Mas curiosamente preservou o título.
“Se quer chegar ao futuro, não crie robôs, plante uma árvore.”
Décadas depois, compreendo que aquela frase infantil carregava uma profundidade que eu mesmo ainda não era capaz de entender.
Vivemos uma época fascinante. Nunca produzimos tanta tecnologia. Nunca estivemos tão conectados. Inteligência artificial, automação, robótica, viagens espaciais. Somos capazes de conversar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta e armazenar em segundos mais informação do que gerações inteiras tiveram acesso durante toda a vida. Mas existe uma pergunta que parece ter ficado para trás: para onde estamos indo?
A tecnologia resolve muitos problemas. Mas não produz oxigênio.
Um algoritmo pode organizar uma floresta em milhões de dados. Mas não produz uma única folha.
Um robô pode plantar uma árvore. Mas não pode substituir uma árvore.
Talvez o grande equívoco da contemporaneidade não esteja no avanço tecnológico, mas na ilusão de que podemos nos tornar independentes da natureza. Como se fôssemos uma espécie capaz de transcender aquilo que nos criou. Como se concreto, aço, telas e servidores fossem suficientes para sustentar a vida.
Frans Krajcberg compreendeu esse perigo muito antes da maioria de nós.
Sobrevivente da guerra, ele reconheceu na destruição das florestas uma violência semelhante àquela que testemunhara entre os homens. Sua arte não buscava representar a natureza. Buscava defendê-la. Os troncos queimados, as raízes carbonizadas e as esculturas monumentais que produziu eram mais do que obras. Eram testemunhos. Eram provas materiais de um crime silencioso que continua acontecendo diante dos nossos olhos.
Ao criar meu diálogo com Krajcberg, não quis reproduzir sua linguagem. Meu interesse estava em conversar com sua visão. Por isso o retrato emerge de cinzas, sombras e matéria. Os vermelhos intensos que circundam sua figura remetem às suas esculturas orgânicas, mas também às feridas abertas da paisagem contemporânea. Ao fundo, os brancos se espalham como fumaça. Não a fumaça do incêndio em si, mas a fumaça da memória. Aquela que permanece quando as chamas já desapareceram.
Existe uma ironia curiosa em nossa época. Sonhamos em colonizar outros planetas enquanto temos dificuldade para preservar o nosso. Buscamos criar máquinas cada vez mais inteligentes enquanto muitas vezes nos tornamos incapazes de perceber a inteligência presente em uma floresta. Falamos sobre o futuro como se ele estivesse nas estrelas, quando talvez ele ainda dependa das raízes.
Krajcberg entendia que a arte não serve apenas para decorar paredes. Ela também pode preservar consciências. Pode impedir que certas perguntas desapareçam. Pode lembrar aquilo que a pressa tenta fazer esquecer.
Hoje, olhando para aquela frase escrita por um menino de doze anos, percebo que ela continua atual.
Talvez mais atual do que nunca.
Não porque os robôs sejam um problema.
Mas porque o futuro não será decidido pela tecnologia que conseguimos criar.
Será decidido pelaquilo que escolhemos preservar.
E nenhuma invenção humana será mais extraordinária do que uma árvore transformando luz em vida, silenciosamente, todos os dias.
Se queremos chegar ao futuro, ainda precisamos plantá-las.