Juscelino Kubitschek e aqueles que enxergam o que ainda não existe
Por Ramaya Vallias | Artista Visual | Psicoteólogo
Ao pintar Juscelino Kubitschek para minha exposição Mestres e Influências – A Construção do Olhar, percebi que não estava diante de um presidente. Estava diante de uma característica humana rara: a visão. Aquela capacidade de enxergar uma realidade que ainda não existe, mas que pode ser construída. A história é movida por pessoas assim. Homens e mulheres que olham para o presente e conseguem perceber possibilidades invisíveis para a maioria.
Juscelino enxergou Brasília quando ela era apenas uma ideia. Walt Disney enxergou um mundo de imaginação onde outros viam apenas entretenimento. Elon Musk visualizou foguetes retornando à Terra quando isso parecia ficção científica. Alexandre, o Grande, imaginou um império unificado quando o mundo conhecido estava fragmentado em reinos rivais. Em épocas diferentes, culturas diferentes e contextos completamente distintos, todos compartilharam uma mesma característica: a capacidade de ver antes.
Mas existe um equívoco comum sobre pessoas visionárias. Muitos acreditam que a visão, por si só, é suficiente. Não é. Uma visão sem trabalho é apenas fantasia. Um sonho sem disciplina é apenas desejo. O que diferencia os grandes transformadores da história não é apenas a capacidade de imaginar, mas a disposição de dedicar anos, às vezes décadas, para transformar uma ideia em realidade. Foi exatamente por isso que Juscelino afirmou: “O otimista pode errar. O pessimista já começa errando.” O otimista age. O pessimista paralisa. O primeiro corre riscos. O segundo sequer inicia a jornada.
A psicologia humana nos mostra que a maioria das pessoas procura segurança. Preferimos o conhecido ao desconhecido. O previsível ao incerto. O visionário, entretanto, convive com a incerteza de forma diferente. Ele não ignora os riscos, mas enxerga algo maior do que eles. Sua atenção está voltada para a construção, não para o medo. É por isso que grandes transformações quase sempre encontram resistência. Toda nova ideia parece impossível até que alguém a realize.
A arte possui uma relação profunda com esse processo. Todo artista é, de certa forma, um visionário. Antes da tela existir, ela já habita a imaginação. Antes da obra ganhar forma, ela já vive como possibilidade. A criação artística nos ensina uma verdade universal: tudo o que existe duas vezes no mundo, primeiro existiu na mente de alguém. Uma cidade. Uma invenção. Uma empresa. Uma obra de arte. Um país.
Talvez seja por isso que continuo fascinado por figuras como Juscelino Kubitschek. Não porque foram perfeitas. Não porque nunca erraram. Mas porque tiveram coragem de imaginar. E a história, em última análise, é escrita por aqueles que possuem a rara capacidade de enxergar um horizonte que ainda não apareceu para os demais.
Sempre existiram homens e mulheres de visão. E sempre existirão. Porque enquanto houver alguém disposto a sonhar com propósito, trabalhar com disciplina e agir com coragem, haverá pessoas capazes de mudar não apenas a própria vida, mas também o destino de muitos outros.
O futuro, afinal, começa sempre como uma ideia.