Uma exposição também se constrói pelos encontros que proporciona. Depois que as obras deixam o ateliê, elas passam a dialogar com outras experiências, memórias e sensibilidades. E há olhares que nos devolvem algo especialmente precioso: uma nova percepção sobre aquilo que criamos.
Foi assim que me senti ao receber as palavras da querida amiga Priscila Freire sobre minha exposição “Mestres e Influências — A Construção do Olhar”, no Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte. Seu texto me trouxe alegria, satisfação e uma emoção profunda. Receber essa leitura de alguém que considero a maior referência em arte que conheço tem um significado muito especial em minha caminhada.
Priscila é uma figura de grande importância para a cultura brasileira. Sua trajetória reúne atuação na gestão de museus, na curadoria, na literatura e na preservação do patrimônio artístico. Foi superintendente de Museus de Minas Gerais, participou da criação de instituições como o Museu Casa Guignard, em Ouro Preto, e o Museu Alphonsus de Guimaraens, em Mariana, e exerceu a coordenação do Sistema Nacional de Museus, em Brasília. À frente do Museu de Arte da Pampulha, contribuiu para a restauração do edifício e para a renovação de seu trabalho museológico.
Sua relação com a arte também se revela na escrita e na proximidade com os artistas. Autora de Histórias de Guignard, Priscila desenvolveu uma profunda amizade e parceria com o pintor, cuja vida e obra apresentou ao público infantil. Essa convivência entre experiência, memória e sensibilidade ajuda a compreender a riqueza de seu olhar.
Ao ler seu depoimento, senti que ela havia encontrado, nas pinturas, intenções que acompanham minha pesquisa em Realismo Abstrato. Procuro construir figuras que tenham presença, que preservem algo da personalidade e da memória de quem retrato. O reconhecimento do personagem abre uma conversa que continua nas manchas, nas cores, nas texturas e nas áreas em que a imagem permanece indefinida.
Compartilho, a seguir, suas palavras na íntegra:
Ramaya Vallias abriu sua exposição no Museu Inimá de Paula com uma grande afluência de público. Diante dos seus numerosos quadros percebe-se um vigor excepcional. Sua pintura nasce de um forte impulso vital. Seria o desdobramento de um estímulo psíquico que penso ser comum ao talento dos artistas. Ao observar como são trabalhados os modelos retratados – uma galeria de personagens conhecidos que marcaram aqui ou no exterior sua história – lembrei-me de Andy Warhol o artista americano que criou um estilo próprio ao reproduzir um revival de pessoas notáveis. Andy Warhol usa figuras de impacto social numa arte nascida do cotidiano popular ao passo que Ramaya dá a seus personagens uma aura de importância e nobreza. Eles se aproximam de nós pelas grandes dimensões usadas e pelos traços bem fixados dentro de um aparato indefinido, denso, como se fossem retirados de outros tempos, de regiões desconhecidas, oníricas. Obra de difícil catalogação, incomum, austera, sem influência de escolas ou modismos. Ramaya Vallias obedece a um ritmo próprio e exclusivo ao dar sua mensagem de excelência e valor artístico ao mundo que vivemos.
Priscila Freire
Entre as passagens que mais me tocaram está sua percepção de que os personagens se aproximam de nós, embora pareçam surgir de outros tempos e de regiões oníricas. Reconheço nessa leitura uma relação com aquilo que busco ao pintar: construir uma presença que permita ao espectador reconhecer um rosto e, ao mesmo tempo, descobrir nele outras possibilidades de encontro.
Também recebo com especial carinho a expressão “obra de difícil catalogação”. No contexto de seu depoimento, entendo essas palavras como o reconhecimento de uma linguagem que não se acomoda facilmente em classificações prontas. Essa leitura me encoraja a continuar pesquisando, experimentando e aprofundando as escolhas que dão forma ao meu trabalho.
A comparação com Andy Warhol abre outra reflexão interessante. Priscila aproxima nossas escolhas de personagens conhecidos e, em seguida, distingue o tratamento que percebe em minha pintura. É um olhar atento às relações entre as obras e às particularidades de cada artista.
Sua generosidade me alegra, e a profundidade de sua leitura me convida a voltar às telas com novas perguntas. Talvez esse seja um dos presentes mais valiosos que um artista pode receber: encontrar alguém capaz de perceber o que a obra comunica e de ampliar nossa própria compreensão sobre ela.
Querida Priscila, obrigado pela amizade, pela sensibilidade e pelas palavras que agora passam a fazer parte da história desta exposição. Guardo seu depoimento com afeto e gratidão, como um encontro precioso entre minha pintura e seu olhar.