Um bando de dodôs: minha pintura entre a memória e o que o tempo não devolve – Ramaya

Há algo que me toca profundamente na ideia de reunir um bando de pássaros que já não existem. Pela pintura, suas imagens voltam a ocupar um espaço entre nós, despertando perguntas sobre a memória e sobre nossa responsabilidade diante da vida.

É com esse sentimento que participo de “Um bando de dodôs”, exposição coletiva organizada pelo Projeto DODÔ, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, com curadoria de Renato Andreuchetti. Instalada em uma galeria dedicada exclusivamente à mostra, no Moinhos Shopping, a exposição reúne pinturas contemporâneas que retratam o icônico pássaro dodô. Apresentada pelo projeto como a única mostra de arte do mundo com essa proposta, ela convida diferentes olhares a dar novas formas a uma ausência compartilhada. De 23 de setembro a 25 de outubro de 2026.

Minha participação nasceu do convite de Renato e ganhou corpo na tela “O que o tempo não devolve”, realizada em maio de 2026, com acrílico e carvão sobre tela, dentro da minha linguagem do Realismo Abstrato. Ao concebê-la, uma pergunta me acompanhou: quantas perdas ainda produzimos acreditando que, mais tarde, tudo poderá ser recuperado?

Para desenvolver essa reflexão, aproximei o dodô de Vincent van Gogh, uma referência central em minha trajetória e na pesquisa de “Mestres e Influências”. Esse encontro impossível reúne dois caminhos distintos através do tempo. A obra de Van Gogh continua encontrando novos olhos, novas leituras e novas gerações. O dodô permanece em nossa memória como imagem de uma vida que não conseguimos preservar.

Essa diferença sustenta a pintura. A arte pode prolongar uma presença, mas a lembrança de uma espécie não substitui sua existência. Ao colocar ambos na mesma composição, quis tornar sensível essa distância entre aquilo que continua conosco e aquilo que perdemos definitivamente.

Na tela, o rosto de Van Gogh ganha presença no encontro entre manchas, pinceladas e matéria. É assim que compreendo meu Realismo Abstrato: a figura se constrói junto com a pintura, e sua identidade aparece entre gestos, transparências e campos de cor. Busquei trazer a intensidade que encontro em sua obra para esse diálogo contemporâneo.

Os vermelhos, laranjas queimados e tons terrosos associados ao rosto carregam calor e inquietação. Em primeiro plano, o dodô aparece em azuis e turquesas, com uma presença silenciosa. A plumagem se afasta das cores naturalistas para participar da emoção da composição. O contraste entre os tons quentes e frios permite que cada figura tenha sua força e, ao mesmo tempo, permaneça ligada à outra.

“O que o tempo não devolve” foi adquirida por um colecionador local, em Porto Alegre. Recebo essa aquisição com alegria: uma obra concebida a partir de perguntas encontra um novo lugar para continuar sendo observada. Sua trajetória passa a incluir também a convivência com alguém que escolheu levá-la para sua coleção.

Participar de “Um bando de dodôs” é compartilhar uma reflexão por meio da pintura e encontrar outras sensibilidades reunidas em torno do mesmo pássaro. Cada artista lhe oferece uma presença diferente. Juntas, essas imagens nos convidam a olhar com mais atenção para aquilo que ainda está ao nosso alcance preservar.

Ao pintar essa tela, voltei muitas vezes à ideia que lhe dá título. O tempo pode mudar nossa compreensão de uma perda, mas nem sempre pode repará-la. Talvez a pintura possa nos ajudar a reconhecer o valor de certas presenças enquanto ainda convivemos com elas.

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