Entre guerras antigas e batalhas invisíveis
Por Ramaya Vallias – Artista Visual – Psicoteólogo
Quando pensamos em Homero, costumamos imaginar um poeta perdido na Antiguidade, cercado por heróis, navios e cidades em chamas. Mas talvez a grande razão pela qual a Ilíada e a Odisseia atravessaram quase três mil anos seja justamente o fato de que elas nunca falaram apenas sobre gregos. Elas falam sobre nós.
A Guerra de Troia não é apenas uma guerra. Ela é a representação de todos os conflitos humanos. Os conflitos entre nações, entre ideias, entre famílias e, principalmente, aqueles que acontecem dentro de cada indivíduo. A grande descoberta da psicologia moderna talvez seja reconhecer aquilo que Homero já intuía: os seres humanos raramente lutam apenas contra inimigos externos. A maior parte de nossas batalhas acontece dentro de nós mesmos.
Vivemos uma época fascinada por velocidade. Construímos algoritmos capazes de responder perguntas em segundos, atravessamos continentes em horas e carregamos no bolso mais informação do que bibliotecas inteiras possuíam há algumas décadas. Ainda assim, continuamos enfrentando os mesmos dilemas fundamentais que moviam os personagens de Homero: quem somos, para onde estamos indo e por que fazemos o que fazemos.
A Odisseia é, acima de tudo, uma obra sobre propósito. Ulisses não luta apenas para sobreviver. Ele luta para retornar. Existe um destino. Existe uma direção. Existe uma casa para a qual vale a pena caminhar. Talvez uma das maiores crises contemporâneas seja justamente a perda dessa percepção. Muitas pessoas possuem metas, mas não possuem propósito. Possuem agenda, mas não possuem direção. Possuem velocidade, mas não possuem destino.
No mundo corporativo fala-se constantemente sobre planejamento estratégico. Definem-se metas, indicadores, prazos e resultados. Tudo isso é importante. Entretanto, Homero nos ensina uma verdade esquecida: nenhum planejamento resiste sem significado. Ulisses enfrentou tempestades, monstros, naufrágios e tentações não porque possuía um plano perfeito, mas porque possuía uma razão para continuar navegando. O propósito foi seu verdadeiro mapa.
Foi essa reflexão que me levou à criação da obra “Odisseia do Vermelho – Fragmentos de Homero”. Não procurei retratar um homem. Procurei retratar uma presença. A figura emerge em fragmentos porque a própria memória humana é fragmentada. O vermelho não simboliza apenas sangue ou guerra. Ele representa experiência. Representa tudo aquilo que nos marcou profundamente e permaneceu conosco através do tempo.
Nessa obra, as cores deixaram de ser apenas elementos visuais para se tornarem capítulos de uma narrativa. O fundo é sustentado pelo Mar Noturno de Ítaca, um preto profundo que não representa escuridão, mas direção. Assim como Ulisses navegava sem enxergar sua ilha, muitas vezes seguimos pela vida guiados apenas pela lembrança daquilo que desejamos nos tornar. É o território psicológico da incerteza, onde nascem os grandes sonhos e também os grandes medos.
Sobre essa imensidão emerge o Sangue dos Navegantes, um vermelho profundo que não fala de violência, mas de sacrifício. É a cor daqueles que aceitam o risco da travessia. Ao seu lado surge Velas ao Entardecer, tonalidade que representa movimento e perseverança. Não é a cor da chegada, mas da continuidade. É a consciência de que ainda existe luz suficiente para avançar, mesmo quando o horizonte começa a escurecer. São as marcas emocionais da coragem humana.
A jornada encontra então a Terra de Troia Queimada, um vermelho mais claro que simboliza os conflitos que nos transformam. Troia não aparece aqui como cidade histórica, mas como metáfora de tudo aquilo que precisa terminar para que algo novo possa nascer. São os ciclos encerrados, as certezas abandonadas, as versões antigas de nós mesmos que precisam ser deixadas para trás. Sobre essas camadas surge a Memória dos Séculos, uma luminosidade suave que representa o legado humano, aquilo que permanece vivo quando os impérios desaparecem.
Por fim, pequenas centelhas de Última Luz da Odisseia atravessam a composição. São pontos brancos quase discretos, mas fundamentais. Como estrelas observadas por um navegador durante a noite, simbolizam a esperança, a verdade, a identidade e o propósito. São lembretes de que existe algo dentro de cada ser humano que resiste ao tempo, às perdas e às tempestades.
Talvez seja exatamente por isso que Homero continua relevante. Porque suas histórias nunca foram apenas sobre heróis gregos. Foram sobre a estrutura profunda da experiência humana. A Ilíada fala das guerras que travamos. A Odisseia fala do caminho que percorremos depois delas. Entre uma e outra, encontramos a vida inteira.
Quando observamos Homero emergindo desses fragmentos vermelhos, percebemos algo extraordinário: a verdadeira odisseia não aconteceu apenas no Mediterrâneo há quase três mil anos. Ela continua acontecendo diariamente dentro de cada pessoa que busca sentido, propósito e direção em meio às próprias tempestades.
Entre Troia e Ítaca, entre a guerra e o retorno, entre a memória e o futuro, existe um território invisível onde todos nós habitamos. Homero o descreveu em palavras. Nesta obra, procurei descrevê-lo em cor, matéria e silêncio.