Entre Nós: Egon Schiele, a Fragilidade Humana e a Eternidade da Arte

“A arte não pode ser moderna. A arte é primordialmente eterna.”
Egon Schiele
 
Por Ramaya Vallias – Artista Visual – Psicoteólogo
 

A grande arte nasce quando o artista ultrapassa a aparência das coisas. Schiele compreendeu isso como poucos. Sua obra não retrata apenas corpos, mas a complexidade emocional que habita cada ser humano. Ao observar suas figuras inquietas, seus corpos retorcidos e seus olhares carregados de silêncio, percebemos que sua verdadeira matéria-prima nunca foi a tinta, mas a condição humana. Mais de um século após sua morte, suas obras continuam nos provocando porque falam de algo que permanece inalterado: nossas vulnerabilidades, medos, desejos e contradições.

Ao criar esta pintura em conversa com Schiele, não procurei reproduzir sua estética, mas dialogar com sua pergunta. Afinal, o que existe dentro de nós quando todas as máscaras caem? A figura retratada encontra-se recolhida sobre si mesma, quase como quem tenta proteger algo precioso ou ferido. Seu corpo se curva para dentro, em um movimento que todos conhecemos. É o gesto de quem pensa demais, sente demais ou simplesmente precisa de um abrigo temporário diante do mundo.

A psicologia nos ensina que o ser humano passa grande parte da vida construindo personagens para habitar a sociedade. Somos profissionais, pais, mães, líderes, artistas, amigos. Mas existe uma região mais profunda, silenciosa e pouco visitada, onde residem nossas inseguranças, lembranças e emoções mais autênticas. Talvez por isso a obra de Schiele continue tão atual. Ela nos lembra que a verdadeira força não nasce da perfeição, mas da coragem de reconhecer nossas próprias fragilidades.

Nesta pintura, os azuis frios e os verdes turquesa criam uma atmosfera de introspecção. As áreas escuras atravessam a figura como marcas da experiência humana, enquanto os brancos parecem abrir espaços de respiração e esperança. Não há aqui a intenção de representar uma pessoa específica. Existe, antes, a tentativa de representar um estado de espírito. Um momento que pertence a todos nós. Porque, em algum instante da vida, todos nos recolhemos para reorganizar aquilo que o mundo desorganizou.

É justamente nesse ponto que a frase de Schiele ganha ainda mais sentido. A arte não é moderna nem antiga. Ela é humana. E tudo aquilo que é profundamente humano atravessa os séculos sem envelhecer. Mudam as roupas, as cidades, as tecnologias e as formas de comunicação. Permanecem, entretanto, as mesmas perguntas: quem somos, o que sentimos e como encontramos significado em nossa existência.

Talvez seja essa a função mais bonita da arte. Não oferecer respostas, mas criar encontros. Encontros entre artistas separados pelo tempo. Encontros entre uma pintura e quem a observa. E, sobretudo, encontros entre nós e aquilo que carregamos em silêncio dentro de nós mesmos.

Por isso esta obra não é apenas uma homenagem a Egon Schiele. É uma conversa. Uma conversa sobre a fragilidade, a introspecção e a beleza de sermos imperfeitamente humanos. Uma conversa que começou há mais de cem anos em um ateliê austríaco e que continua acontecendo, hoje, diante de uma tela, em cada pessoa disposta a olhar para dentro de si. 

Veja o processo de criação desta obra: https://www.instagram.com/p/DZBCGRvxkLt/

 

Rolar para cima