O Que o Tempo Não Devolve

Entre o Dodô, Van Gogh e aquilo que ainda permanece vivo em nós

Por Ramaya Vallias | Artista Visual | Realismo Abstrato | Psicoteólogo

Existem obras que eu não pinto apenas com tinta.
Eu pinto com perguntas.

O Que o Tempo Não Devolve nasceu exatamente assim. Não surgiu apenas da ideia de retratar o pássaro Dodô ao lado de Van Gogh. Surgiu da necessidade de refletir sobre aquilo que a humanidade perde enquanto está ocupada demais para perceber o valor das coisas. O Dodô, extinto há séculos, representa para mim tudo aquilo que desaparece antes de ser verdadeiramente compreendido. E Van Gogh talvez seja uma das maiores representações humanas desse mesmo processo: alguém que existiu intensamente, mas que o seu próprio tempo não conseguiu enxergar plenamente.

Sempre me impressionou pensar que o Dodô não desapareceu pela força da natureza, mas pela ação humana. Existe algo profundamente psicológico nisso. Muitas vezes, nós também extinguimos partes importantes dentro de nós mesmos. Perdemos sensibilidade, identidade, coragem, profundidade emocional. Aos poucos, certas versões nossas entram em silêncio até desaparecerem sob o peso da rotina, da necessidade de agradar, da pressa e do excesso de mundo. O Dodô, nesta obra, não é apenas uma ave extinta. Ele é símbolo das delicadezas que a humanidade frequentemente destrói sem perceber.

Van Gogh aparece na tela como outra forma de ausência. Não uma ausência física apenas, mas emocional e histórica. Um homem profundamente sensível vivendo em um mundo ainda incapaz de compreender sua intensidade. Sempre enxerguei Van Gogh como alguém que transformava dor em matéria luminosa. Sua arte carregava humanidade demais para o seu tempo. Talvez por isso ela tenha atravessado séculos com tanta força. O mundo demorou para alcançá-lo. E essa demora também é uma forma de perda.

Na construção desta pintura em meu Realismo Abstrato, eu quis que ambos coexistissem dentro de uma atmosfera emocional quase fragmentada. O rosto de Van Gogh emerge dissolvido entre gestos, matéria e tensão cromática, como alguém tentando permanecer vivo dentro da memória coletiva. Já o Dodô ocupa o primeiro plano com uma presença silenciosa, quase contemplativa. Há uma inversão simbólica nisso: aquilo que desapareceu fisicamente continua espiritualmente presente, enquanto aquilo que foi ignorado em vida tornou-se eterno através da arte.

As cores tiveram um papel psicológico fundamental nessa construção. Os vermelhos intensos, os laranjas queimados e os azuis profundos criam uma espécie de combustão emocional na tela. O azul-turquesa do Dodô traz uma sensação de permanência espiritual, enquanto os tons quentes de Van Gogh carregam inquietação, febre criativa e vulnerabilidade humana. Eu queria que a pintura respirasse tensão e delicadeza ao mesmo tempo. Como a própria existência.

E então surge a pergunta central desta obra:
o tempo pode nos devolver algo?

Hoje acredito que sim.

O tempo devolve aquilo que parecia perdido no ruído da pressa. Devolve silêncios que um dia pareciam vazios, mas eram apenas sementes enterradas sob excesso de mundo. Devolve maturidade ao amor, profundidade à dor e verdade às máscaras. Existem coisas que só conseguimos compreender depois que a emoção baixa a voz.

O tempo devolve a coragem que o medo havia sequestrado.
Devolve a identidade que a necessidade de agradar dissolveu.
Devolve a sensibilidade que a dureza da vida tentou endurecer.
E, às vezes, devolve até nós para nós mesmos.

Mas aprendi também que o tempo não devolve tudo da mesma forma. Algumas coisas retornam transformadas. Outras voltam apenas como memória. E existem aquelas que jamais regressam, justamente para que algo novo possa nascer no espaço que ficou vazio.

Talvez o maior mistério do tempo seja este: ele não trabalha apenas recuperando coisas. Ele trabalha revelando o que realmente tinha valor.

E quanto mais verdadeira é uma essência, menos o tempo consegue destruí-la.

A grande arte sabe disso.
O amor verdadeiro também.
E talvez seja exatamente por isso que o Dodô e Van Gogh continuam vivos entre nós.

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