Entre Bouguereau, Dante e os infernos emocionais da contemporaneidade
Por Ramaya Vallias – Artista Plástico – Realismo Abstrato – PisicoTeólogo
Existem obras que atravessam o tempo não apenas pela beleza técnica, mas porque continuam falando sobre aquilo que permanece insolúvel dentro do ser humano. Foi exatamente isso que senti ao revisitar Dante e Virgílio no Inferno, de William-Adolphe Bouguereau. Sua pintura monumental não me impacta somente pela anatomia perfeita ou pela dramaticidade da composição, mas pela violência psicológica silenciosa que ela carrega. Ao olhar aqueles corpos em combate, percebo algo muito além do inferno literário descrito por Dante Alighieri: vejo o homem lutando contra si mesmo.
Na minha releitura em realismo abstrato, intitulada Onde o Homem Devora a Si Mesmo, procurei trazer essa tensão para os dias de hoje. Não me interessava reproduzir o inferno medieval, mas revelar o inferno contemporâneo que habita nossas emoções, relações e pensamentos. Hoje, os monstros não possuem asas demoníacas nem vivem em mundos subterrâneos. Eles surgem na ansiedade constante, no excesso de comparação, na necessidade de aprovação, nos traumas não resolvidos, na solidão emocional e no esgotamento silencioso que tantas pessoas carregam enquanto tentam aparentar força.
A composição da obra nasce exatamente desse embate psicológico. Os corpos não se enfrentam apenas fisicamente; eles parecem presos um ao outro como extensões da mesma dor. Há uma fusão quase sufocante entre ataque e dependência, entre destruição e necessidade emocional. No meu realismo abstrato, a anatomia deixa de buscar perfeição clássica e passa a carregar tensão emocional através da matéria, da deformação e da vibração cromática. As figuras permanecem humanas, mas emocionalmente fragmentadas, como se estivessem se dissolvendo diante do próprio peso interno.
As cores têm papel fundamental nessa narrativa. Os azuis frios criam uma sensação de distanciamento psicológico, quase anestesia emocional. Já os vermelhos, laranjas e tons terrosos funcionam como combustão interna, evocando impulsos humanos extremos: raiva, desejo, medo, obsessão e sobrevivência. Existe um choque constante entre temperatura e silêncio, entre carne e vazio. O vermelho que ocupa a superfície da tela não representa apenas fogo. Representa pressão emocional. Representa uma mente saturada pelo excesso de estímulos, cobranças e conflitos internos.
Talvez o aspecto mais inquietante dessa obra seja perceber que o inferno não está distante de nós. Ele acontece aqui mesmo, diariamente, dentro de pequenas escolhas emocionais. O ser humano moderno muitas vezes se devora lentamente através da autocobrança excessiva, da incapacidade de desacelerar, da perda de sentido, da desconexão espiritual e da ausência de presença real. Vivemos cercados por informação, mas profundamente carentes de silêncio. Cercados por conexões digitais, mas emocionalmente isolados.
E talvez a saída para esse inferno contemporâneo esteja justamente no movimento contrário ao que o mundo atual exige. Menos velocidade. Mais consciência. Menos comparação. Mais identidade. Menos ruído. Mais presença. A arte, para mim, ocupa exatamente esse lugar: ela interrompe o automatismo da vida e obriga o ser humano a olhar para dentro de si. Quando pinto, não busco apenas construir imagens. Busco criar espaços de confronto, reflexão e humanidade. Porque reconhecer nossos próprios abismos talvez seja o primeiro passo para não sermos consumidos por eles.
Veja um pouco da criação desta obra: https://www.instagram.com/p/DYayFmfxe5E/
@ramayavallias