Entre o sagrado e o fragmentado, o homem como território de emoções
Por Ramaya Vallias – Artista Plástico – Realismo Abstrato
Há imagens que pertencem à história, outras pertencem àquilo que ainda não conseguimos nomear. Em A Mesa da Condição Humana, proponho um deslocamento silencioso e ao mesmo tempo radical, não é mais a narrativa da Última Ceia de Leonardo da Vinci que se apresenta, mas o seu eco interior. Se na obra renascentista cada apóstolo é um indivíduo, portador de identidade, gesto e história, aqui há uma dissolução deliberada da figura enquanto pessoa. O que resta não são homens, mas estados, não são rostos, mas pulsões, não são personagens, mas fragmentos daquilo que somos.
No centro, o Cristo permanece, ele é o único ainda reconhecível como figura humana, e isso não é um acaso compositivo, mas um eixo conceitual. Ele representa a consciência, o ponto de convergência, talvez até a tentativa de unidade dentro do caos psíquico. Ao seu redor, os doze deixam de ser apóstolos para se tornarem manifestações emocionais, medo, dúvida, negação, desejo, culpa, entrega, angústia, silêncio. Cada forma é instável, quase em decomposição, como se a matéria estivesse em constante negociação com a existência.
A mesa, esse elemento tão simbólico na tradição, deixa de ser apenas um suporte físico e se transforma em campo visceral. O vermelho que a atravessa não é apenas cor, é fluxo, pode ser sangue, pode ser energia, pode ser a própria vida escorrendo entre as relações humanas. A horizontalidade da mesa, antes ordenada e equilibrada em Última Ceia, aqui se tensiona, vibra, se torna quase um organismo. Não há estabilidade, há pulsação.
Do ponto de vista da psique, a obra se aproxima de uma leitura quase analítica do ser humano. O Cristo, isolado em sua inteireza, pode ser visto como o self, a tentativa de integração. Já os doze, fragmentados, representam os conteúdos que orbitam essa consciência, impulsos, traumas, desejos reprimidos, conflitos não resolvidos. A ausência de individualidade neles é proposital, porque essas emoções não têm rosto fixo, elas transitam, nos habitam, nos atravessam. Somos, em muitos momentos, mais essas forças do que aquilo que pensamos ser.
Há também uma dimensão de ruptura. Enquanto Última Ceia organiza o drama em uma narrativa clara, o anúncio da traição, aqui o drama é contínuo, sem início nem fim. Não se trata de um evento, mas de uma condição permanente, a existência humana como estado de tensão entre aquilo que buscamos ser e aquilo que inevitavelmente carregamos.
Formalmente, a linguagem do realismo abstrato permite essa ambiguidade essencial. Reconhecemos a cena, mas não podemos nos apoiar nela, o olhar tenta identificar, mas a matéria escapa. Há gesto, há peso, há camadas que parecem guardar memória, a pintura não descreve, ela revela, não ilustra, ela expõe.
No fim, A Mesa da Condição Humana não fala sobre um momento bíblico, fala sobre todos os momentos internos que vivemos ao longo da vida. Sobre sentar-se consigo mesmo e perceber que, à mesa, nunca estamos sozinhos, há sempre uma multidão silenciosa dentro de nós, e talvez o maior desafio não seja expulsá-la, mas aprender a reconhecê-la, e, quem sabe, integrá-la.