IBERÊ, A MATÉRIA QUE RESPIRA — um diálogo entre tempos, gesto e presença

Entre a figura que resiste e a matéria que explode, um encontro onde a pintura deixa de representar e passa a existir.

Por Ramaya Vallias – Artista Plástico – Realismo Abstrato

Há artistas que passam pela história. E há aqueles que permanecem nela como uma espécie de pulso contínuo, quase tectônico. Iberê Camargo é um desses nomes que não apenas ocupam espaço na arte brasileira, mas a tensionam, a empurram, a fazem respirar com mais densidade. Minha relação com Iberê não nasce da referência acadêmica, mas do encontro sensível com sua matéria. Não é uma admiração distante, é uma escuta. Uma conversa silenciosa que atravessa o tempo.

Ao pintar seu retrato, não busquei reproduzir Iberê. Busquei encontrá-lo. Ou melhor, permitir que ele emergisse dentro da minha própria linguagem. No meu realismo abstrato, a figura permanece reconhecível, mas é construída através do gesto, da matéria, da ruptura. Iberê, por sua vez, nunca foi sobre a forma pura. Ele sempre foi sobre o embate. Sobre a luta entre o que se quer controlar e o que insiste em escapar. E é exatamente nesse território que nossas linguagens se tocam.

Minha tela nasce desse ponto de contato. O rosto se revela, mas não se entrega completamente. Há camadas que escondem, outras que revelam. Há tensão. Há silêncio. Há ruído. A tinta não descreve apenas um homem, ela constrói um estado. O azul invade como memória fria, o ocre aquece como carne, o preto estrutura como peso. E, em meio a tudo isso, o olhar permanece — firme, inquieto, presente. Como se ainda estivesse nos observando, nos provocando.

Pintar Iberê foi, para mim, mais do que uma homenagem. Foi um confronto necessário. Um exercício de honestidade artística. Porque diante de um mestre assim, não há espaço para superficialidade. Ou você mergulha, ou a obra não sustenta. E talvez seja esse o maior legado de Iberê: a exigência. A arte como compromisso. Como intensidade. Como verdade.

Se houver uma oportunidade, recomendo uma visita à Fundação Iberê Camargo. Mais do que um espaço expositivo, é uma experiência. Um mergulho na mente de um artista que transformou a matéria em linguagem e a angústia em potência criativa. Ali, entende-se que Iberê não é passado. Ele continua acontecendo.

E talvez seja isso que mais me fascina: alguns artistas não terminam suas obras. Eles continuam pintando através de nós.

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