Por Ramaya Vallias – Artista Plástico – Realismo Anbstrato
Hoje, um grande entendido me perguntou:
“Mas afinal… o que é realismo abstrato?”
A pergunta não veio vazia.
Veio carregada de método, de história, de lógica,
como um cartógrafo tentando desenhar o contorno de algo que se move.
Porque a arte, ao longo do tempo, sempre tentou organizar o mundo.
Criar territórios seguros.
Nomear, separar, classificar:
figurativo, abstrato, realismo.
Mas há obras que não aceitam endereço fixo.
Obras que não cabem em gavetas.
Obras que preferem a fronteira.
É nesse território que eu trabalho.
Quando uso o termo realismo abstrato, não é por descuido.
É por escolha.
E mais do que isso; é por consciência.
Sim, existe uma tensão nesse nome.
E ela é inevitável.
Porque, tecnicamente,
o abstrato não representa.
E o realismo representa.
São forças opostas.
Quase incompatíveis.
Mas a minha pintura nasce exatamente desse atrito.
Você olha…
e reconhece o rosto.
Reconhece a presença.
Há algo ali que te encara.
Mas quando se aproxima, percebe:
aquilo não foi construído pela lógica da cópia.
Foi construído por manchas.
Por gesto.
Por camadas que se sobrepõem como tempo.
Por cor que não descreve… mas sugere.
Por matéria que carrega intenção.
Eu não pinto o real de forma direta.
Eu não reproduzo.
Eu reconstruo o real.
E essa reconstrução não é linear.
Ela passa pelo instinto, pela memória, pela sensação.
Ela passa por tudo aquilo que a fotografia não alcança,
porque não se vê… mas se sente.
Talvez, em um vocabulário mais técnico,
isso pudesse ser definido como
“figurativo com linguagem abstrata”.
Mas esse termo não carrega a tensão que me interessa.
Não carrega o conflito.
Não carrega a pergunta.
E a minha pintura precisa dessa pergunta viva.
Porque é nessa contradição
que ela respira.
É nesse lugar instável
entre o que é e o que se dissolve,
entre forma e ruptura,
entre controle e liberdade,
que a imagem ganha presença.
O realismo abstrato não busca resolver essa dualidade.
Ele habita nela.
Ele aceita que a figura exista…
mas não como prisão.
Aceita que o abstrato se manifeste…
mas não como fuga.
E no meio disso, algo acontece:
a imagem deixa de ser apenas representação
e passa a ser experiência.
Talvez a arte, no fundo, nunca tenha sido sobre respostas.
Talvez ela exista exatamente para isso,
para tensionar, provocar, deslocar.
E talvez o erro seja apenas
o nome que damos
ao que ainda não aprendemos a olhar.
Na minha pintura,
essa contradição não é um problema.
É linguagem.
É estrutura.
É origem.
É exatamente onde a minha arte acontece.