Entre Séculos e Camadas: o diálogo vivo com os mestres

Quando a pintura deixa de ser memória e volta a ser presença

 

Por Ramaya Vallias – Artista Plástico – Realismo Abstrato

Há algo de profundamente inquietante nos grandes mestres da pintura. Eles não pertencem apenas ao passado. Não estão presos às molduras dos museus ou às páginas dos livros. Eles atravessam o tempo como uma corrente invisível, silenciosa, mas intensa, influenciando a forma como vemos, sentimos e criamos. Sua presença não é histórica, é viva. Está na luz que incide sobre um rosto, no gesto que interrompe a perfeição, na cor que vibra além da lógica.

A minha relação com esses mestres nunca foi de cópia, mas de escuta. Não se trata de reproduzir formas, e sim de dialogar com forças. Cada pincelada carrega uma conversa que começou há séculos e continua agora, no meu tempo, no meu corpo, na minha matéria. É como se a pintura fosse um idioma contínuo, onde cada artista acrescenta sua voz, sem jamais apagar as anteriores. O que me interessa não é repetir, mas responder.

Existe uma energia nesses artistas que permanece disponível. Uma energia que pulsa, que atravessa gerações e que se revela àqueles que se permitem sentir além da superfície. Aproximar-se desses mestres é mais do que estudar técnica, é entrar em contato com uma espécie de campo sensível, onde emoção, história e expressão se entrelaçam. É uma experiência quase física, como se o cheiro da tinta ainda estivesse fresco no ar, esperando ser respirado novamente.

E quanto mais me aproximo deles, mais essa presença se intensifica em mim. Mais tinta carrego, mais gesto se revela, mais verdade emerge. A minha pintura nasce exatamente desse encontro: entre o que foi e o que é, entre o que permanece e o que se transforma. Trago para o presente não a imagem dos mestres, mas a energia que os moveu — agora filtrada pelo meu olhar, pela minha linguagem, pelo meu tempo.

É nesse território que nasce a série Mestres e Influências. Uma construção que não olha para trás com nostalgia, mas com continuidade. Cada obra é um ponto de contato, um território de tensão entre reverência e criação. E será nesse espírito que essa jornada ganhará corpo em uma grande mostra no Museu Inimá de Paula, no final de maio.

Mais do que uma exposição, será um encontro. Não apenas entre obras e público, mas entre tempos. Porque a arte, quando verdadeira, não pertence a uma época. Ela permanece. E continua a nos chamar.

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