Um encontro entre voz, violão e pincel, onde a emoção de Elis Regina ecoa em cor, gesto e presença — transformando música em matéria viva
Por Ramaya Vallias – Artista Plástico – Realismo Abstrato
Há momentos em que a arte deixa de ser apenas linguagem e se torna acontecimento. Foi assim na minha mais recente performance ao vivo, no acolhedor espaço do Exóticus (@exoticusbh). Ali, entre o aroma do café recém-passado e a vibração sensível do público, dei início a uma tela dedicada à imensa Elis Regina — não como quem pinta um retrato, mas como quem tenta tocar o intangível.
Elis não foi apenas uma cantora. Foi um fenômeno de interpretação. Sua voz não se limitava a executar melodias, ela atravessava as palavras, tensionava os silêncios e devolvia ao mundo uma verdade quase crua. Em muitos sentidos, foi também um trampolim para outros artistas, abrindo caminhos, revelando composições, elevando obras e nomes a um outro patamar. Cantar com Elis era entrar em combustão criativa. Ou você se elevava… ou se queimava.
E foi exatamente essa intensidade que busquei na tela. Enquanto as primeiras camadas surgiam, a música tomava o ambiente pelas mãos e voz angelical, que a dupla maravilhosa Karen Carvalho e Edmar Carvalho, nos trouxeram. Eles não apenas tocaram, eles costuraram o tempo. Cada acorde de MPB, especialmente os de Elis, parecia guiar meu gesto, como se o pincel obedecesse a uma partitura invisível. A pintura deixou de ser gesto isolado e virou diálogo: som e matéria, emoção e forma.
No meu processo em Realismo Abstrato, existe sempre uma base de construção, uma lógica silenciosa. Mas nesses instantes raros, algo se desloca. A consciência analítica recua, e o que emerge é um estado quase visceral. A tinta ganha pulso. A cor deixa de ser escolha e passa a ser resposta. Foi exatamente isso que vivi ali: não pintei Elis, fui atravessado por ela.
Essa obra passa agora a integrar a série Mestres e Influências, e em breve estará exposta no Museu Inimá de Paula, no final de maio. Será uma honra apresentar ao público esse encontro entre música e pintura, entre memória e reinvenção.
E para quem deseja viver uma experiência completa, deixo aqui um convite especial: conheça o Exóticus. Um lugar onde arte, gastronomia e afeto caminham juntos. O brunch, assinado pela talentosa Larisa Bubani, é um espetáculo à parte. Um espaço na Pampulha que não se visita apenas — se sente.
Porque há dias em que a arte não se contempla.
Se respira. Se ouve. Se vive.