A praça que permaneceu dentro de mim
Por Ramaya Vallias – Artista Plástico – Realismo Abstrato
Existem lugares que deixam de ser apenas espaços físicos e passam a existir dentro da memória. A Praça da Liberdade sempre foi assim para mim. Mais do que um dos cartões-postais de Belo Horizonte, ela se tornou parte da minha formação emocional, visual e artística. Foi ali, ainda criança, caminhando aos finais de semana entre árvores, arquitetura e pessoas, que comecei a compreender silenciosamente o poder da arte sobre a vida.
As idas à feira hippie carregavam algo de descoberta. Entre artesanato, pinturas, cheiros, música e conversas, havia uma cidade criativa pulsando diante dos meus olhos. Lembro-me de observar os artistas expondo seus trabalhos com uma curiosidade quase hipnótica. Não era apenas o objeto artístico que me atraía, mas a presença humana por trás da criação. A praça me ensinou cedo que a arte podia nascer do cotidiano, da rua, da memória e da sensibilidade popular.
Entre esses encontros visuais, tive contato com referências que permaneceram profundamente no meu imaginário pictórico, como Amilcar de Castro, os artistas populares mineiros e, especialmente, Amadeo Luciano Lorenzato. Lorenzato carregava algo que sempre me tocou: a capacidade de transformar simplicidade em linguagem poética. Sua relação com a paisagem urbana, com os ritmos da cidade e com a matéria da pintura deixou marcas profundas em minha percepção artística. Talvez, sem perceber, eu já estivesse aprendendo ali que pintura não é reprodução do mundo, mas interpretação sensível da experiência vivida.
Décadas depois, ao criar a obra Luz Sobre a Liberdade, não quis retratar a praça como registro arquitetônico ou paisagem turística. Quis pintar aquilo que permaneceu dentro de mim. Os ipês roxos surgem quase como explosões de lembrança, enquanto a arquitetura modernista aparece dissolvida entre luz, memória e emoção. A praça não está representada como um lugar fixo, mas como sensação. Como fragmento afetivo. Como infância atravessada pela arte.
A luz que invade a composição possui exatamente esse significado. Não é apenas iluminação pictórica. É a luz da descoberta. A luz das caminhadas ao lado da família. A luz dos artistas expondo suas obras ao ar livre. A luz silenciosa que, sem que eu soubesse, ajudava a construir meu olhar. Cada camada de tinta desta obra carrega um pouco dessa experiência acumulada ao longo dos anos.
Hoje compreendo que muitos dos caminhos que sigo dentro do meu Realismo Abstrato nasceram ali, entre as árvores da praça, o movimento da cidade e os artistas que ocupavam aquele espaço com criatividade e resistência cultural. Luz Sobre a Liberdade talvez seja, acima de tudo, uma tentativa de devolver à Praça da Liberdade aquilo que ela me ofereceu durante toda a vida: inspiração, pertencimento e imaginação.
A obra Luz Sobre a Liberdade, 1,50×1,30 – Inventory nr. TPHM200 – Coleção Particular – BH-MG
Instagram: @ramayavallias