Entre a Forma e a Ruptura
Por Ramaya Vallias – Artistia Plástico – Realismo Abstrato
Há rostos que não pedem para ser vistos, pedem para ser atravessados. Ao retratar Francis Bacon dentro da minha linguagem de realismo abstrato, não busquei uma semelhança fiel, mas um encontro inevitável com aquilo que escapa à forma. A figura está ali, reconhecível, quase intacta à primeira vista. Mas, ao se aproximar, ela se dissolve em camadas, em cortes, em tensões que parecem vibrar sob a superfície. A matéria não está a serviço da estética, ela é a própria narrativa. Cada gesto carrega um ruído interno, como se a tinta lembrasse de algo que o corpo tentou esquecer.
Bacon entendia a figura humana como um campo de batalha. Não um retrato da aparência, mas daquilo que nos habita quando não há testemunhas. Essa pintura dialoga com esse território. As deformações não são erros, são revelações. A assimetria do rosto, os vazios, as sobreposições, tudo aponta para uma psique em constante rearranjo. O humano aqui não é idealizado, é exposto. E, nesse processo, a arte deixa de ser conforto para se tornar confronto.
Há uma dimensão psicológica que emerge silenciosa, quase incômoda. O retrato parece carregar fragmentos de memória, traumas sedimentados, experiências que não encontram linguagem verbal. A pintura, então, assume esse papel: o de traduzir o indizível. As áreas mais densas, quase escuras, sugerem contenção, repressão. Já os cortes de luz, abruptos, funcionam como fissuras, momentos onde a verdade escapa. É nesse contraste que a obra respira, entre o que se esconde e o que insiste em aparecer.
A vivência humana não é linear, e essa obra não pretende organizá-la. Pelo contrário, ela abraça a desordem como parte essencial da existência. O rosto não está em colapso, ele está em transformação. Há algo que resiste ali, mesmo diante da fragmentação. Um olhar que permanece. E talvez seja esse o ponto mais silencioso e poderoso da pintura: a persistência. Não da forma perfeita, mas da presença imperfeita que continua, apesar de tudo.
Entre a ruptura e a reconstrução, existe um espaço onde a aceitação começa a se desenhar. Não como resignação, mas como reconhecimento. Reconhecer que somos feitos de camadas, de marcas, de histórias que nem sempre são belas, mas são verdadeiras. Essa obra não busca respostas. Ela abre um campo. Um espelho instável onde, ao olhar Bacon, talvez sejamos inevitavelmente levados a nos encontrar.
Veja o processo de criação desta obra no link abaixo:
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