A ARTE EM TEMPO REAL: A PINTURA COMO PERFORMANCE

Por Ramaya Vallias – Artista Plástico – Realismo Abstrato

A pintura, durante séculos, foi associada ao silêncio do ateliê, ao tempo longo da construção e à contemplação posterior da obra pronta. Mas existe um momento em que tudo isso se rompe, quando o processo deixa de ser escondido e passa a ser o próprio espetáculo. É aí que nasce a performance.

A chamada performance art ganhou força no século XX, especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970, quando artistas começaram a questionar os limites tradicionais da arte. Movimentos como o Fluxus e experiências provocativas como as de Marina Abramović colocaram o corpo, o tempo e a ação no centro da obra. A arte deixava de ser apenas objeto e passava a ser acontecimento.

Dentro desse universo, a pintura ao vivo surge como uma extensão natural. O artista não apenas apresenta o resultado final, mas convida o público a testemunhar o nascimento da obra. Cada gesto, cada escolha de cor, cada pausa passa a fazer parte da experiência artística.

O que é a pintura em performance

Pintar em performance é transformar o ato de pintar em linguagem. Não se trata apenas de habilidade técnica, mas de presença. O artista se expõe, assume riscos, trabalha sem a proteção do tempo ou da edição. Tudo acontece ali, no instante.

É uma dança entre controle e entrega. Existe intenção, existe domínio, mas também existe escuta. Escuta do ambiente, das pessoas, da energia que circula. O quadro deixa de ser algo planejado rigidamente e passa a ser algo construído em diálogo com o momento.

Por que as pessoas se conectam com a performance

Há algo de profundamente humano em assistir a uma criação acontecendo ao vivo. Em um mundo cada vez mais editado, filtrado e finalizado, ver o processo cru desperta curiosidade e conexão.

O público não está apenas vendo um quadro sendo feito. Está acompanhando decisões, hesitações, descobertas. Está vendo o invisível da arte se tornar visível.

Existe também o fator do irrepetível. Cada performance é única. Mesmo que o tema seja o mesmo, o resultado nunca será igual. Isso cria um senso de presença, de “estar ali” em algo que só acontece uma vez.

O que o artista sente ao performar

Para quem está pintando, a experiência é intensa. Existe adrenalina, concentração e, ao mesmo tempo, uma espécie de liberdade difícil de explicar.

A performance exige presença absoluta. Não há espaço para distração. O artista entra em um estado quase meditativo, onde o tempo se altera e tudo passa a girar em torno daquele ato.

E há algo ainda mais profundo, que muitos artistas reconhecem. Em vez de impor uma imagem, o artista passa a ouvir o que a obra pede. A pintura deixa de ser uma imposição e se torna um diálogo.

É nesse ponto que surge uma sensação genuína de alegria. Não apenas pelo resultado, mas pelo processo vivido. Pela troca com o público. Pela energia compartilhada.

Um outro estilo de pintura

A pintura em performance não substitui a pintura de ateliê, ela amplia o campo da arte. É um outro estilo, uma outra forma de existir como artista.

Se no ateliê há introspecção, na performance há expansão. Se no silêncio há construção interna, no ao vivo há troca direta.

No meu trabalho, especialmente dentro do realismo abstrato, essa linguagem ganha ainda mais força. A figura nasce reconhecível, mas se transforma diante dos olhos, incorporando gesto, cor e emoção em tempo real. O público não vê apenas o retrato, vê a sua construção, a sua desconstrução e o seu renascimento.

No fim, a performance revela algo essencial, a arte não é apenas o que se vê pronto.
É aquilo que acontece enquanto ela está sendo criada.

E talvez seja por isso que pintar ao vivo me faz tão bem, porque ali, mais do que produzir uma obra, eu estou vivendo a arte em sua forma mais verdadeira.

Instagram: @rvallias

 

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