Por Ramaya Vallias – Artista Plástico – Realismo Abstrato
Receber a Comenda Martin Luther King, em um cenário tão simbólico como a Cidadela de Cascais, em Portugal, foi mais do que uma honra, foi um daqueles momentos em que o tempo parece desacelerar para que a alma compreenda o que está acontecendo. Em meio a um salão repleto de convidados ilustres, líderes, diplomatas e representantes de diferentes partes do mundo, senti o peso e, ao mesmo tempo, a leveza de carregar um nome que transcende gerações. Minha profunda gratidão à Jethro International por essa distinção que não recebo apenas como reconhecimento, mas como responsabilidade.
Mas foi ali, naquele mesmo instante solene, que a arte encontrou seu lugar mais verdadeiro. Não como objeto, mas como ação. Não como contemplação, mas como presença viva. Retratar Martin Luther King Jr. em uma performance ao vivo foi uma experiência que ultrapassou a pintura. Foi um diálogo silencioso com sua história, com sua voz, com sua coragem. Cada gesto carregava intenção, cada camada de tinta parecia buscar algo além da forma, algo que não se vê, mas se sente.
A obra nasceu em meio a uma paleta densa, terrosa, visceral. Tons de ocres e marrons estabeleceram uma base quase orgânica, como se a própria tela fosse feita da memória da luta. O negro trouxe profundidade e silêncio, enquanto os vermelhos atravessaram a composição como pulsos de energia, evocando sacrifício, urgência e transformação. Pequenos pontos de branco surgiram como respiros, como luzes insistentes que se recusam a desaparecer. Não foi uma escolha apenas estética, foi uma construção emocional.
O rosto de King não foi simplesmente pintado, ele emergiu. Entre camadas espessas, gestos fortes e matéria viva, a imagem foi se revelando como quem atravessa o tempo. Essa é a essência do que chamo de realismo abstrato, a figura está ali, reconhecível, mas construída pela abstração, pelo gesto, pela emoção. Não se trata de copiar o real, mas de reconstruí-lo. E naquele momento, mais do que nunca, essa reconstrução carregava um peso simbólico imenso.
A atmosfera da pintura refletia o próprio ambiente. Havia uma tensão silenciosa, uma reverência coletiva, uma energia que atravessava o espaço. A luz e a sombra não apenas modelavam o rosto, mas sugeriam contrastes profundos, luta e esperança, dor e legado, ausência e permanência. Era como se a própria tela absorvesse o significado daquele encontro e devolvesse em forma de presença.
Pintar diante de um público tão atento e sensível transformou completamente o processo. Não era um ato solitário. Era um diálogo. A cada olhar, a cada silêncio, a cada respiração do ambiente, algo se incorporava à obra. A emoção não estava apenas em mim, ela circulava. E foi exatamente isso que tornou essa experiência tão única, a pintura deixou de ser apenas minha e passou a ser daquele momento, daquele espaço, daquela história compartilhada.
Saio dessa experiência profundamente grato. À Jethro International, pela confiança e pelo reconhecimento. Aos presentes, pela energia e pelo respeito. E à própria arte, que mais uma vez me mostrou que seu papel vai muito além da estética. Ela é ponte, é memória, é presença.
E, naquele instante em Cascais, ela foi tudo isso ao mesmo tempo.