Uma experiência de arte, fé e criação
Por Ramaya Vallias – Artista Plástico – Realismo Abstrato
Existem momentos na vida de um artista que ultrapassam o simples ato de pintar. Momentos em que a arte deixa de ser apenas um processo técnico ou intelectual e se transforma em uma experiência viva, sensorial e profundamente espiritual. Foi exatamente isso que vivi recentemente ao realizar uma performance de pintura ao vivo, enquanto o talentoso organista Jonatas Andrade executava músicas sacras em um magnífico órgão de tubos.
A experiência aconteceu dentro da Igreja Batista da Renascença, um espaço que por si só já carrega uma atmosfera de contemplação e reverência. Mas naquela ocasião, algo especial aconteceu. Enquanto eu preparava a tela para retratar o momento do Batismo de Cristo, Jonatas iniciava suas primeiras notas no órgão. E desde os primeiros acordes, ficou claro que aquela não seria apenas uma pintura feita diante do público. Seria um encontro entre duas linguagens artísticas que, juntas, criariam algo único.
O órgão de tubos possui uma força muito particular. Diferente de outros instrumentos, ele não apenas produz música; ele cria uma espécie de arquitetura sonora. Cada nota se espalha pelo espaço, percorre o ambiente, vibra nas paredes e envolve completamente quem está presente. A música não fica apenas nos ouvidos, ela parece atravessar o corpo.
Enquanto Jonatas tocava, as harmonias sacras criavam uma atmosfera quase litúrgica. Era como se cada acorde abrisse um espaço interior de contemplação. Para mim, como artista, essa sensação influenciou diretamente o gesto da pintura. As pinceladas se tornaram mais intuitivas, mais livres, mais conectadas ao momento presente.
Foi nesse ambiente que comecei a construir a obra que retrata Jesus em seu batismo no rio Jordão. Trata-se de um dos momentos mais simbólicos da tradição cristã. Segundo os evangelhos, é ali que o céu se abre, o Espírito Santo desce como pomba e uma voz declara a identidade divina de Cristo. É um momento de revelação e de início de uma missão.
Enquanto a música ecoava pela igreja, essa cena começou a se formar na tela. Não de maneira literal ou ilustrativa, mas através de cores, gestos e texturas. Azuis claros sugeriam o céu aberto, tons terrosos representavam a presença humana e pinceladas luminosas atravessavam a composição como raios de luz divina.
Em muitos momentos, tive a sensação de que a pintura respondia diretamente à música. Quando a melodia se tornava mais intensa, o gesto pictórico ganhava força. Quando a música se tornava contemplativa, a pintura também se tornava mais delicada. Era como se a tela estivesse dialogando com o som.
Esse tipo de experiência reafirma algo que acredito profundamente: a arte nasce do encontro. Encontro entre sensibilidade, espaço, tempo e pessoas. Nesse caso, o encontro entre a música de Jonatas e minha pintura criou uma atmosfera criativa muito especial.
Jonatas Andrade demonstrou uma sensibilidade impressionante ao conduzir essa experiência. Seu domínio do órgão de tubos, aliado à escolha cuidadosa das peças sacras executadas, ajudou a construir um ambiente emocional que elevou o momento artístico. Sua música não foi apenas um acompanhamento. Ela foi parte essencial da criação da obra.
Ao final da performance, o sentimento era de gratidão. Gratidão pela oportunidade de viver um momento tão intenso de criação, gratidão pela parceria artística e pela forma como a música e a pintura se entrelaçaram de maneira tão natural.
A obra que surgiu dessa experiência carrega em sua matéria algo que vai além da técnica ou da composição. Ela guarda a memória daquele instante em que som, fé e pintura se encontraram.
E talvez seja exatamente isso que torna algumas obras especiais. Elas não nascem apenas da mão do artista, mas de um momento vivido intensamente.